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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

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Prelúdios fraseológicos

Tenho andado de olho no início das frases e o diagnóstico que faço é preocupante. Habituámo-nos a pensar neste momento expositivo inicial como uma entidade pacata, neutra, altruísta, comprometida apenas com a fluência escorreita e honesta do raciocínio. Mas as coisas estão a mudar. O início da frase é hoje um terreno cada vez mais usado para enganar, dissimular, confundir, um pântano que enlameia a dignidade e a seriedade fraseológica.

 

Um dos ardis mais comuns no início da frase é a falsa declaração de humildade, pela qual se assume de forma aparentemente modesta a destituição de um estatuto ou conhecimento, para de seguida se reclamar esse acervo. “Eu não sou economista, mas” e “embora não conheça o dossiê a fundo, não tenho dúvidas em afirmar que” são exemplos típicos deste engodo. Num primeiro momento fica-se com a sensação de que estamos perante uma pessoa que sabe quais os limites do seu conhecimento. Mas após este introito furtivo somos rapidamente atacados por afirmações tonificadas e imperialistas. O falso humilde começa por se fazer de morto para depois apunhalar o interlocutor pelas costas. No fim ficamos a saber que ele é que sabe, embora tenha dito que pouco ou nada sabia.

 

O prelúdio fraseológico “o meu amigo sabe melhor do que eu” eleva esta matreirice ao paroxismo. Aquele tipo com quem não concordamos nada e em relação ao qual até sentimos algum desprezo, afinal considera-se nosso amigo. Tratamos mal quem está emocionalmente ligado a nós. Pensamos que talvez essa pessoa esteja sozinha no mundo, sem carinho nem afecto. E ainda por cima elogia publicamente a nossa sapiência e brilhantismo. Perante estas momices amansamos, baixamos a guarda, e acabamos por deixar entrar o cavalo de madeira.

 

Importa também destacar a estratégia de antecipação do mérito discursivo. Neste caso, o orador desqualifica aquilo que foi dito pelos outros e anuncia a pertinência do que vai dizer antes de apresentar as suas ideias e argumentos. “Vamos lá ver bem as coisas”, “é preciso olhar com rigor para os números”, ou “separemos o essencial do acessório” são alguns exemplos deste tipo de prelúdio. Se na falsa declaração de humildade o orador procura seduzir a audiência, neste caso a sua estratégia é eminentemente belicista. Este expediente é usado por quem não tem rigorosamente nada para dizer e, no limite, por quem não sabe sequer do que está a falar. Para escamotear este facto recorre-se a um discurso circular, labiríntico, destituído de conteúdo. 

 

- Como é que olha para o problema do desemprego?

- Ao contrário do sotôr Vilela, acho que temos de recentrar o debate naquilo que é essencial. Olhemos para os factos. Filtremos o ruído e ouçamos com atenção aquilo que a realidade nos diz. Estudemos os dossiês com honestidade intelectual. Tratemos o desemprego como problema e não como solução.

- Sim, mas…

- O desemprego está a jusante de um conjunto variado de questões que estão a montante. Sejamos honestos. Sejamos sinceros. Sejamos verdadeiros. Sotôr Vilela, não vale a pena tapar o sol com a peneira. O sotôr quer sol na eira e chuva no nabal. Diz uma coisa às segundas, quartas e sextas e o seu contrário às terças, quintas e sábados. E aos domingos diz outra ainda diferente!

 

Um terceiro estratagema consiste na apresentação de pergaminhos. Neste caso estamos a falar de pessoas que por terem uma ideia muito difusa de um dado tema, ou simplesmente porque são exibicionistas, sentem necessidade de começar as suas intervenções comunicando as suas credenciais formais. É isso que faço sempre que me pedem alguma opinião sobre questões de direito.

 

- Como jurista, parece-me que o novo regime de resolução bancária é uma questão bastante complexa e intrincada. Podia tentar explicar mas vocês não iam perceber.

- E qual é a tua opinião acerca desse tema enquanto frequentador de tabernas?

- Como frequentador de tabernas, acho que se devia dar um tiro na nuca dessa malandragem toda.

 

FPC 

 

 

 

 

 

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