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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Grávido

A primeira vez que ouvi um homem dizer que estava “grávido” foi num encontro organizado por associações e partidos de esquerda. Nesse dia já tinha assistido a conferências onde se defendia que os ricos são todos uns grandes malandros, os homens umas bestas intumescidas e as religiões uma fossa normativa entupida por preceitos atávicos e pouco recomendáveis ao olfacto. Bandeiras sensatas, portanto. Embora me sentisse enfartado dessa ementa temática, decidi empanturrar-me ainda mais com um debate acerca dos desafios que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho, das penalizações morais e materiais que sofrem enquanto corpos de gestação da raça humana. Quando entrei na sala, orava um jovem equipado com guedelha, barba e roupas descuidadas, cuidadosamente abrigadas no perímetro da estética acarinhada pelos públicos destes certames. A plateia, feminina por larga maioria, aderia à intervenção. Mais pelo sentido do conteúdo do que pela eloquência da declamação. Limitava-se a afagar o dorso discursivo de um rapaz que estava do lado certo da contenda sexual. Eis que, quando nada o fazia prever, a pauta de uma conversa arrumadinha e progressista o quanto baste emitiu, sem aviso prévio, notas por mim nunca escutadas:

 

- Eu e a minha namorada estamos grávidos...

- Quando fiquei grávido...

- Quando engravidámos...

- A nossa gravidez...

 

Primeiro ouviu-se uma aclamação tonitruante por parte da audiência. Várias mulheres gritaram “é o messias, é o messias!” Depois vieram as vénias. Um bando de andorinhas invadiu a sala e desenhou no ar a forma de um coração. E eu fiquei incrédulo com o enigma que ali tinha sido enunciado. Num primeiro momento ainda tentei deslindar as possibilidades orgânicas de tal fenómeno. Afinal a fronteira entre o masculino e o feminino já não é o que era. Há homens que são mulheres e mulheres que são homens. Se existem transsexuais, por que razão não podem também haver transgrávidos? Censurei a meu raciocínio primitivo, desajustado ao vanguardismo cultural que borbulhava naquele encontro político, e decidi aderir à adoração do grávido. Tentei beijar-lhe os pés, mas ele pontapeou-me o focinho de uma forma muito pouco urbana. Apesar de não ter o hábito de discutir com grávidos, soergui-me para lhe pedir satisfações.

 

- Então venho aqui adorar-te e tu rechaças a minha deferência à patada?

- Não vês que estou ocupado a degustar os morangos que estas duas senhoras me depositam no palato?

- Por acaso és imune à toxoplasmose? Olha que os morangos podem ser perigosos para alguém que se encontra na tua situação.

- A isso sou imune, mas a pessoas que dizem coisas parvas nem por isso.

- Estás de quantos meses? Ainda não se vê a barriga.

- Ouve, a minha gravidez não é física. Disse que estava grávido porque já sabia que as mulheres derretem-se com esta forma romântica de o homem declarar o seu comprometimento com a parentalidade. Sou um tipo carente que precisa de atenção, percebes? Agora raspa-te daqui!

 

A prenhez masculina tinha sido usada ardilosamente por aquele falsário para atrair a simpatia do povo feminino. O grávido orador apresentava-se, devido a essa sua condição figurada, como poeta lírico e servente capacitado para a manutenção do fraldário. Habituadas a serem penalizadas por desigualdades e injustiças, as mulheres compungiram-se com a sensibilidade militante implícita naquela intervenção, acreditaram no projecto identitário e político progressista que emanava daquele discurso mavioso. Um anjo parecia ter descido à terra, mas eu vi o seu rabinho a dar a dar.

 

Homens há (muitos) para quem ser pai implica, de facto, a assunção das mesmíssimas responsabilidades parentais da mãe. Alguns deles falam acerca da sua gravidez sem com isso quererem amealhar reconhecimentos sub-reptícios. Contudo, quando os oiço, não consigo deixar de recuar ao dia em que me confrontei pela primeira vez com o paradoxo gestacional e a impostura que nele germinava. Daqui a uns meses vou ser pai de uma criança que está a estagiar em barricas amnióticas de um corpo feminino bem preparado para o amadurecimento dessa uva. Acompanho a grávida e a gravidez com dedicação canina e entusiasmo transbordante. Mas posso afirmar com bastante certeza que não estou grávido.

 

FPC 

 

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