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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Em defesa do uninome

O sistema nacional de nomeação das pessoas está em crise e necessita de reformas imediatas. O nome serve para nomear alguém, mas é cada vez mais difícil identificar alguém pelo nome. Na minha perspectiva, o grande problema que se coloca à política do nome prende-se com a questão da dupla nomeação do indivíduo. Temos um primeiro e um segundo nome próprios. Do ponto de vista estético é interessante podermos combiná-los e admito que há também algo de profundamente libertário na possibilidade de escolha do nome e da sua articulação. A estética e a liberdade têm valor, mas a dupla nomeação das pessoas só arranja sarilhos e irritações.

 

Tenho uma prima que se chama Nádia Inês. Como é óbvio nunca a tratei por Nádia. Nem eu, nem os pais que lhe deram o nome. No outro dia fui ao hospital visitar a Inês e não havia Inês.

 

- Desculpe, mas não há aqui nenhuma Inês, disseram-me na recepção. Você tem a certeza de que a sua prima se chama Inês?

- Ela é minha prima há mais de 30 anos, acho que já tive tempo de aprender o nome dela, ronquei acintoso.

- Há aqui uma Nádia Inês, mas Inês mesmo Inês não há nenhuma…

- Ah pois, se calhar é essa, miei. A vantagem estava agora toda do lado da recepcionista.  

- Depois de 30 e tal anos o espertalhão ainda não sabe o nome da priminha! Já sabes agora? Se não souberes não te deixo subir!

- Nádia, o nome da minha prima é Nádia, minha senhora.

   

Além de semearem a confusão, os dois nomes próprios abrem caminho a irritantes estratégias de distinção na nomeação das pessoas. A minha namorada chama-se Elisabete, Elisabete Patrícia (a sério, o nome é mesmo este, não estou a gozar). Como não há grandes assimetrias de estilo entre Elisabete e Patrícia, toda a gente a trata por Elisabete, respeitando aliás a ordem nominal das coisas. Mas a família, que lhe deu o nome de Elisabete e apenas supletivamente meteu lá a Patrícia, trata-a por Patrícia.

 

- Frederico, vai lá chamar a Patrícia…

- Elisabeteeeeee…

Como chamar nomes diferentes a uma mesma pessoa é uma prática algo demencial, já tentei chamá-la por Patrícia ao pé da família.

- Estás a chamar Patrícia à Patrícia?, indignou-se uma tia. Não me lembro de lhe teres mudado as fraldas quando ela era bebé, de a levares ao médico quando partiu a cabeça, de cantares “o balão, do João, sobe sobe pelo ar…” para a menina adormecer. Bandalho.

 

As fragilidades do actual sistema de dupla nomeação manifestam-se de forma particularmente evidente em três grupos sociais.

 

O primeiro grupo é o dos megalómanos, os que entendem que devem ser tratados não por um, mas por dois nomes próprios. A sua magnificência transborda os limites do respeito oferecido por um nome apenas e obriga a que se construa uma dupla estrutura nominal, capaz de suportar o peso de tão excelsa personalidade. A Ana é também Maria, o João só responde se o tratarmos por João Manel ou João Miguel, e para nos dirigirmos aos Josés temos obrigatoriamente adicionar Pedro, Mário, Luís. Se não ainda apanhamos.

 

Depois há o grupo dos fusionistas, cuja nomeação decorre do imbricamento entre os dois nomes próprios. Cajó, Tozé, Jóli, Mané. Ao contrário dos megalómanos, os fusionistas aceitam o princípio moral de “uma pessoa, um nome”. O Cajó, por exemplo, não ambiciona beneficiar ao mesmo tempo da sua condição de Carlos e de Jorge. Há, portanto, uma certa dose de humildade, de civismo, de temperança nominal.

 

O terceiro grupo é o dos redundantes, e ele representa a mais acabada aberração deste sistema nominal desregulado. Estamos a falar de desgraçados cujos progenitores não se deram ao trabalho de lhes escolher dois nomes próprios. Foi deste desmazelo que nasceram os Victores Victores e os Andrés Andrés deste mundo. Ser-se Victor Victor ou André André é sinónimo de rejeição na infância e isso é um rótulo discriminatório inaceitável.

 

Além destes três grupos, há ainda uma outra espécie, os desapelidados, nascidos de uma trágica experiência nuclear que resultou na mutação da genética nominal da humanidade. Estas criaturas caracterizam-se por terem apelidos que na verdade são nomes próprios. Em regra, exigem ser tratadas por todos os nomes que compõem a sua identidade nominal, procurando por esta via um alívio dos complexos de inferioridade associados ao facto de não terem apelidos. Por serem de trato difícil, os exemplares desta espécie estão em vias de extinção. Maria Filomena Mónica é uma das sobreviventes, e costuma ser avistada nas páginas da imprensa portuguesa a falar sobre os jardins de Lisboa.

 

Oponho-me a este sistema de dupla nomeação. Ao longo da vida uma pessoa pode perder uma perna, um braço, um olho, um testículo até, mas não tenho conhecimento de alguém ter perdido inesperadamente o nome. Se a natureza contingencial da nossa existência colocasse em perigo o nome que temos, percebia que nos dessem dois para o caso de a coisa correr mal. Assim não faz sentido. Se querem diferenciar nominalmente as pessoas então façam-no tendo em conta as façanhas ou características de cada um. Implemente-se um sistema de cognomeação dos indivíduos. Tal como o Afonso I ficou conhecido como o Conquistador, o Dinis como o Lavrador e o Sebastião como o Estúpido, também a populaça teria de lutar por uma nomeação condigna. A minha é óbvia: Frederico o Bonito e Inteligente. Quer dizer, pode ser só o Bonito para depois não dar confusão.    

 

FPC

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