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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

EMERDAL

O Dinis Machado escreveu que perante uma situação dramática tinha o hábito de procurar o lado cómico da mesma. Dá o exemplo de uma vez que caiu, partiu um dente e, enquanto era observado por transeuntes, sempre inefáveis e pontuais a perscrutar a tragédia alheia, perguntou-se, mais uma vez, “qual é o lado mais cómico disto?” Encontrar graça na desgraça ajuda a amenizá-la, torna-a suportável, humaniza-a. Há muito tempo atrás ia numa ambulância com um amigo que tinha caído de mota. A cara do sinistrado tinha perdido vastas tirinhas de bife para o asfalto. Debaixo do queixo escavou-se uma área que dava para agasalhar confortavelmente um berlinde, talvez mesmo um abafador. Não escasseava sangue na superfície daquele corpo juvenil combalido. Estava este cenário a entrar-me pelos nervos adentro quando o enfermeiro se pronunciou. Da boca daquele profissional de saúde, alto e pançudo, a quem estava entregue a vida do meu amigo, foi-me endereçada a seguinte pergunta talvez um pouco impertinente: “então ali no vosso parque de campismo há gajas boas?” Até o acidentado ressuscitou a rir perante tamanha desfaçatez do senhor enfermeiro.

 

Nem sempre acho piada à tragédia no momento em que a vivencio. Um dia destes os funcionários da EMEL bloquearam-me o carro. O plano para esse dia era sair de Lisboa a seguir ao almoço e ir desfrutar dos prazeres gastronómicos e vinícolas do norte do país. Se tudo corresse de feição, às seis da tarde já estaria na esplanada de um café a trabalhar nos preliminares do jantar. Como nada correu bem, a essa hora estava eu ainda a atafolhar o carro com isto, aquilo e não sei mais o quê. O meu bólide estava estacionado ao pé do prédio onde habito, num lugar proibido, excepto para “tomada e largada de passageiros”. Assumi que o facto de ir “tomar” as minhas duas filhas bebés me qualificava para beneficiar dessa excepção. Desavisadamente confiei na minha rústica hermenêutica. Devia ter pedido um parecer jurídico ao Jorge Miranda.

 

Depois da carga arrumada, fui buscar as crias e a mãe delas. Finalmente ia conseguir fazer-me à estrada. Teria de me contentar em seguir directamente para a mesa do jantar sem passar pela esplanada de partida. Qual não foi o meu espanto quando me deparei com o carro bloqueado, envolvido por uma fita amarela, como se fosse uma prenda. Parabéns! Em menos de cinco minutos algemaram o meu carro e os meus sonhos. Uma velha que patrulha a rua a partir da marquise de um 1º andar de esquina informou-me que não os apanhei “por uma questão de segundos”. Confidenciou-me e a toda a rua que na semana anterior lhe tinham feito uma coisa parecida. Senti-me irmanado com ela e perguntei-lhe se poderia corroborar que eu me tinha ausentado durante quase tempo nenhum. Respondeu-me heroicamente que não tinha nada a ver com isso, fechando de seguida as janelas da sua toca. Desamparado, demolhado pela forte chuvada que entretanto começou a cair, liguei para a EMEL e da EMEL respondeu-me um robô com o qual dialoguei através das teclas do telemóvel. Se estiver ao pé do carro marque 1, se pagar e calar prima 2, se permitir que a empresa encave o seu rabinho escolha o número 3. Tive de esperar 50 minutos para que me devolvessem a liberdade. Quando finalmente dois salgueiros maias desta empresa municipal chegaram, recebi-os cordialmente:

 

- Os prezados funcionários da ditosa Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa, por quem todos os munícipes sentem um carinho e respeito incondicional, têm a gentileza de me explicar os factos objectivos e subjectivos que fundamentaram a vossa ponderada e, sem dúvida alguma, sábia decisão de agrilhoar as rodas do meu carro?

 

Mantendo este tom diplomático, quase reverente, agarrei-me ao braço de um deles a berrar “tenho ali duas filhas bebés no carroooooo!!!!!! Duas!!!!!!!!! Estás a ver!!!!!!!! Isto é uma vergonhaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!”

 

O homem abraçado não se moveu nem articulou uma sílaba. Parecia que tinha ganho raízes nas pedras da calçada. Caso o tivesse conseguido arrastar, quebrando a sua pose rochosa, penso que o tipo me teria dado um tiro. O outro, o homem da EMEL bom, procurou elucidar-me:

 

 - Devia ter deixado os piscas ligados.

- Isso não é obrigatório.

- Pois não.

- Então porque é que me bloquearam o carro?

- Os piscas não são obrigatórios... mas para fazer cargas e descargas é preciso que esteja pelo menos uma pessoa no carro... está na lei e tudo.

- Devia ter dito à minha mulher para vir para o carro e deixar as bebés em casa sozinhas, é isso?

- Oiça, da próxima vez meta os piscas... são 90 euros.

 

É inaceitável que uma empresa pública que comete sistematicamente este tipo de selvajarias tenha um nome fofinho. Se fosse a EPUL e a EPAL, cuja fonética das siglas é condizente com o som de um murro nos dentes e de um tabefe, respectivamente, tudo bem. Mas o que a EMEL faz não é mel, é cocó. Se esta instituição quiser continuar a atormentar a vida das pessoas deveria proceder à alteração do seu nome para EMERDAL: Empresa Municipal Especializada em Rapinar Dinheiro aos Automobilistas de Lisboa. E nesse caso todos nós poderíamos mandar os emerdalistas à merdal.

 

FPC

 

 

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