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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

A recolha

O eufemismo permite perfumar o infecto, maquilhar o ordinário, polir os recantos da indignidade. O mentiroso é apenas “imaginativo”, quem rouba limita-se a “subtrair” ou “desviar”, a senhora que comercializa o seu corpo prazenteiro não é puta, “anda na vida”. A invocação desta figura de estilo pode dever-se a questões menores, como a vaidade estilística do orador ou a mera galhofa, mas também a razões gravosas. Incluem-se nesta gama as situações em que a referência directa a algo ou alguém causa em quem fala e em quem ouve um nível de pudor socialmente insuportável. A linguagem erudita, técnica, ou a própria mímica, nada podem fazer nestes momentos. Como não é possível nomear directamente o inominável, recorre-se à mera alusão, à suavização expressiva, ao travestimento das palavras.

 

Foi com essa candidez criativa que me deparei numa consulta destinada a casais que, estando motivados para a procriação, são infecundos nas suas arremetidas. Depois de a minha parceira ter respondido a algumas questões impúdicas colocadas pela médica (que provocaram em mim pequenos surtos de riso talvez pouco ajustados à situação e à minha idade), fui confrontado com a possibilidade de os inquilinos do meu dependurado T2 serem uns mandriões imprestáveis no que ao labor conceptivo diz respeito. Enjeitei essa hipótese, invocando o facto de me alimentar devidamente, fazer algum desporto, não fumar, e ser sócio do Benfica. Apesar da pertinência destes argumentos, foi-me dito que só havia uma coisa a fazer:

 

- O Frederico vem cá e faz a recolha.

- Qual recolha?

- Vem recolher… percebe?

- O quê?

-O seu esperma.

- Eu é que me recolho a mim próprio?

- Sim, e nós recolhemos a sua recolha.

- Então não posso fazer isso em casa?

- Sim, mas nesse caso tem de trazer a recolha depressa para cá, caso contrário a amostra recolhida pode morrer pelo caminho.

 

O facto de a ordem da missão ter sido enunciada eufemisticamente demonstra bem o nível de desconforto que envolve a sua concretização. Se a médica me tivesse dito “você vem cá, bate uma punhetazinha bem esgalhada para um copo, e depois vai à sua vida”, talvez o opróbrio da situação se desvanecesse. Mas não. Ao optar pela referência ao acto de agasalhar o perneta, mungir o Horácio, embalar o cabeçudo, esmifrar o esquilo, polir a corneta através de um eufemismo técnico, formal, higiénico, sem empatia nem comicidade, a médica aumentou a gravidade daquilo que eu tinha de ir fazer ao hospital. Procurou dar uma roupagem asséptica à porcaria que me sentenciou praticar e, por essa via, fez-me sentir um badalhoco.

 

Como não queria arriscar a vida dos meus meninos, decidi proceder à colheita em solo hospitalar. A defesa da honra do operariado reprodutivo que constantemente aflui às minhas duas fábricas testiculares, mas também a inconfessável dúvida de que esses trabalhadores talvez não estivessem devidamente qualificados para produzir um ser humano, ajudaram-me a enfrentar o embaraço, a vergonha, a humilhação. Aquela a quem eu pretendia polinizar acompanhou-me. Aguardei discretamente na sala de estar, fingindo por vezes esgares de dor para dessa forma confundir as pessoas em relação aos motivos da minha presença naquele serviço hospitalar. Fui chamado e apresentado a uma sala pequena e minimalista na sua decoração, apetrechada com revistas especializadas e uma televisão que se recusava funcionar. Fiquei frustrado por não poder beneficiar dos estimulantes conteúdos oferecidos por este meio, em particular a actualidade informativa ou o programa do Goucha. Apesar deste contratempo, não esmoreci e procurei munir-se de todo o material necessário ao escopo desta visita. Foi então que me deparei com o recipiente onde era suposto acomodar o produto da faina que se avizinhava, o qual me surpreendeu pelo seu volume exagerado. Quem é que aquela gente pensava que eu era? Um cavalo? Nem que ficasse ali dois anos conseguia encher aquele poço. Desculpei tal despropósito e comecei a folhear as páginas da imprensa ali disponível. Acabei por me interessar pelo ar extremamente culto e bondoso de uma senhora com origens indianas. Atento à sabedoria que emanava da entrevista que ela concedeu à publicação, fiz o que tinha a fazer de forma mais mecânica do que orgânica e pus-me a andar daquele compartimento. Cá fora, recurvei a cabeça para o chão, encurtei 2/3 do volume do meu corpo, elevei os pés a cinco centímetros do chão e flutuei de mansinho até à recepção.

 

- Conseguiu?, gritou a muito pouco discreta administrativa.

- Sim, respondi abafadamente.   

- Você não demorou mais de cinco minutos, isso é que foi!, anunciou ela a uma plateia que estava a começar a interessar-se pelo assunto.

- Estou com um bocadinho de pressa, soprei nervosamente, com a cabeça afundada entre os pulmões. 

- Ouvi dizer que este cartão de crédito dá um desconto de 10% em análises ao esperma, afirmou a minha acompanhante, que entretanto se tinha juntado ao festival de achincalhamento público do recolector.

- Tem razão! Sempre é uma ajudinha boa! Deixe-me só então confirmar o número de….

 

E lá estive a ser trespassado durante mais 10 minutos pelos olhares trocistas e brejeiros de uma multidão opressora de seis ou sete pessoas. Grande parte delas certamente à espera da sua vez para ir fazer a respectiva recolha.

 

FPC

 

 

PS: My boys can swim e já ajudaram na produção de uma Mariana. Peço-lhes publicamente desculpa por, também eu, ter desconfiado da sua produtividade.

 

 

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