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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

A minha

Estou casado há mais de cinco anos e nunca mais me vou esquecer do momento que selou este imarcescível e romântico enlace:

 

- Frederico Manuel Pincho Cantante, aceita Elisabete Patrícia Pereira Rodrigues como a coproprietária deste imóvel, sito na rua Luciano Cordeiro, e penar com ela até ao resto dos vossos dias para pagar uma hipoteca usuária sobre o empréstimo bancário que contraíram?

- Sim, senhor notário.

 

Parece-me que o facto de ter assinado um contrato de compra e venda de uma habitação espelha bem o amor incondicional que sinto pela titular dos outros 50% do imóvel, mas para muito boa gente isso não chega. O pai dela, por exemplo, continua a censurar as minhas mais inofensivas demonstrações de carinho pela filha em público. Basta um cândido beijinho para protestar “este algarvio é um abusador!” e, se a abraço, recebo prontamente um não muito cordial “tira já as patas da minha menina!”

 

Independentemente do vínculo formal que enforma as relações dos casais, a partir dos 30 anos deixamos de ter namoradas ou namorados e passamos a possuir mulheres ou homens. No meu caso, sinto quando me perguntam pela "mulher" ou "esposa", fazem-no usando um tom jocoso, cínico, censurador. Parece que essa referência vem acoplada com o subtexto “mulher é como quem diz, nem sequer te casaste com ela, meu animal, tens a mania que és alternativo e não sei quê, bairro alto sempre em festa, uma rapariga tão decente merecia melhor do que um tocador de congas, vê lá se atinas, já é tempo de lhe meteres um anel no dedo e um filho no bucho!”

 

Confesso que me sirvo muitas vezes da categoria “mulher” com o objectivo de elevar os meus níveis de prestígio. As reuniões de condomínio e as conversas nas escadas do prédio onde habito são, de longe, os contextos modais dessa invocação: “eu e a minha mulher concordamos com a proposta que está em cima da mesa”, “vou estudar essa questão com a minha mulher” ou “sobre a limpeza das escadas o melhor é falarem com a minha mulher” são exemplos de frases a partir das quais procuro demonstrar a sobriedade e o modernismo libertário inscrito na minha condição adulta.

 

Apesar de usar este trunfo simbólico com o intuito de solidificar a minha reputação enquanto condómino e cidadão, a verdade é que sinto que estou a fazer batota, a vender um produto de contrafacção, e que mais tarde ou mais cedo vou ser apanhado pelos inspectores das relações conjugais.

 

- Esta rapariga aqui quem é?

- É a minha mulher, senhor inspector.

- Foi pela igreja ou pelo civil?

- Pelo civil, mais ou menos. Como comprámos uma casa estamos casados, ahahahahaha!

- Olha, olha, mais um trapaceiro a cair nas malhas da lei! Vou autuá-lo pelo uso abusivo da designação “a minha mulher”. Gente na sua condição só pode dizer “a minha namorada”, “a minha parceira” ou “a minha gaja”. Caso seja militante do Bloco de Esquerda pode usar também o termo “companheira” durante um prazo de dois anos. Mas depois vai ter mesmo de se casar. 

 

Perante esta pressão social cheguei a ajoelhar perante a inevitabilidade do casório. Foi em casa dos pais da pessoa-com-a-qual-tenho-uma-relação-afectiva-bastante-durável-mas-que-ainda-assim-não-pode-de-modo-algum-ser-classificada-como-minha-mulher-ou-esposa que descobri a resposta para este problema. No início pensei que a mãe dela se esquecia de acabar as frases, mas com o tempo fui percebendo que a senhora tinha afinal desenvolvido uma espécie de simplex vocabular para se referir ao seu marido. Quando fala dele, invoca um muito sintético “o meu”. O meu isto, o meu aquilo. Ao contrário da indolência implícita na expressão “ó meu” ou “ó minha”, o pronome possessivo é usado por Ana Rodrigues com devoção e respeito marital. Veja-se como através desta tecnologia é possível evitar toda a burocracia adjacente ao processo de nomear a pessoa com quem temos uma relação sentimental. Depois de experimentar este produto linguístico já não quero outra coisa. Teste-o você também, caro leitor, garanto-lhe que não se vai arrepender. 

 

E agora vou ter de pôr um ponto final nestas elucubrações. A minha faz anos hoje e quer pagar um almoço ao seu. Obrigado pela refeição e parabéns.    

 

FPC

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