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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Elites

Uma das características mais admiráveis das elites portuguesas prende-se com a sua humildade e sentido autocrítico. Não é raro ouvirmos elementos pertencentes aos grupos dominantes da nossa sociedade lamentar olimpicamente que “as elites nacionais não estão à altura dos portugueses.” Na douta opinião destes ilustres, um povo tão abnegado e trabalhador como o português merecia melhor sorte em relação ao calibre da sua classe timoneira. Os mais desconfiados dirão que este tipo de discurso é formatado por um paternalismo hipócrita que procura granjear sub-repticiamente a admiração e o carinho plebeu em relação ao dissimulado membro da elite que o profere. Eu chamar-lhe-ia apenas honestidade intelectual.

 

Um dos aspectos mais interessantes da assunção de culpa por parte de alguns membros das elites é que esta é sempre diferida. O elitista crítico nunca se sente atingido pelas ponderadas e corajosas críticas que faz ao seu grupo de pertença, mesmo que tenha tomado decisões políticas ruinosas para o país ou explore de forma impiedosa e avarenta os seus trabalhadores. De acordo com as suas queixinhas, quem se portou mal no recreio mal foram os colegas que se sentam consigo na primeira fila. Apesar da bondade destas denúncias, os seus efeitos são sempre contraproducentes. O denunciador aponta o dedo ao Martim, ao Salvador e à Mitucha, mas quem acaba por levar as reguadas são os colegas das filas de trás. Talvez não seja inteiramente justo que a falência criminosa de bancos, os prejuízos milionários suportados pelo Estado decorrentes de contratos leoninos firmados com privados, ou a fuga e evasão fiscal das grandes fortunas se repercutam em aumentos de impostos, cortes nas pensões e prestações sociais, e no desinvestimento nos serviços públicos. Mas mais vale açoitar a carne já calejada dos pobres e remediados do que destratar a pele mimosa e luzidia das nossas elites.

 

Além de criticar os outros membros da elite que não ele, o elitista crítico tende a censurar um tipo de vanguarda diferente da sua. O rico vitupera a elite política, o político poderoso ataca a elite económica. Enquanto outros beligerantes resolvem as suas diferenças aos tiros e à pancada, as elites portuguesas preferem seguir a sóbria tradição monárquica do acasalamento. O sotôr que quando trabalhava no privado negociou contratos que resultaram em perdas financeiras avultadas para o Estado é convidado para fazer parte do governo, a governante que cessa funções vai administrar empresas que administram espólios financeiros que ela própria administrou, directa ou indirectamente, quando era ministra, o deputado que parlamenta em nome do interesse colectivo é remunerado por empresas e escritórios que se dedicam a defender os interesses privados. A sabedoria popular ensina que quem desdenha quer comprar. Ou então quer ser comprado.

 

António Guterres veio, também ele, relembrar recentemente que são as elites que tiram o lustro a isto tudo. Estamos a falar de alguém que desistiu de governar o pântano lusitano depois de perder umas eleições autárquicas, mas achou que era capaz de endireitar os problemas da África Sub-Sahariana e do Médio Oriente. O que são a fome, as guerras e a morte endémica quando comparadas com a apocalítica missão de governar um país sem ter uma maioria absoluta no parlamento? Pouca coisa. O facto de o brilhante e valoroso príncipe da ACNUR, que quer ser rei da ONU, ter baqueado durante a sua vigília em Portugal demonstra que o lombo deste rectângulo não é fácil de selar. Os portugueses até têm sido bastante montados nas últimas décadas pelas suas elites, mas dessa cópula política e económica não resultou a almejada linhagem de prosperidade para todos. Quer dizer, alguns prosperaram e muito. A maioria nem por isso. 

 

FPC

 

 

 

 

 

Desperguntar

O ser humano é uma espécie bastante inventiva. Essa característica tem-lhe permitido criar coisas formidáveis como o avião, a Internet ou a chaise longue, mas também outras cujo valor acrescentado para o bem-estar colectivo não é facilmente identificável. Uma das tecnologias mais obsoletas e irritantes que conseguimos fabricar foi a despergunta. Não satisfeitos com a divisão do mundo discursivo entre interrogações e afirmações, decidimos que era boa ideia enxertar estes dois tipos de locução. Nasceu assim um Frankenstein comunicacional pelo qual se formula uma pergunta utilizando o molde da afirmação.

 

O meu problema com a despergunta decorre do facto de esta ter uma natureza furtiva, rastejante, pérfida. A despergunta é uma ratoeira armada para caçar o interlocutor mais distraído, um lubrificante destinado a untar a língua alheia. O desperguntador aproxima-se das suas presas como quem não quer a coisa e quando elas dão por isso já lhes abocanhou as informações que pretendia degustar. A discrição felina com que estes ataques são preparados faz com que muitas das vítimas não tenham sequer consciência da ameaça que enfrentam. Passeiam-se tranquilamente pelos pastos da conversa e quando dão pela arremetida do desperguntador já é, quase sempre, tarde demais.

 

Há, aliás, muito boa gente que embora seja repetidamente esbulhada por desperguntadores ao longo da vida nunca se chega a aperceber disso. Furtos parecidos aos que a seguir são relatados talvez já tenham tido lugar no quotidiano do caro leitor.

 

 

- Este fim-de-semana ficas por casa a descansar…

- Não, vou ao festival da chanfana em Vila Nova de Poiares.

 

Ou,

 

- Tu cá para mim votas PSD…

- Votei no Costa.

 

Ou ainda,

 

- Deves estar a ganhar muito bem neste novo trabalho…

- Nem por isso.

- 1500 ganhas de certeza…

- 1000 euritos e já não é mau.

 

Ninguém utiliza tão abundantemente esta artimanha como as empregadas domésticas. Parece que para aceder à profissão tiveram de frequentar um mestrado em desperguntologia e já se esqueceram de como se pergunta interrogativamente. As empregadas domésticas limpam as casas, mas também as frivolidades da vida de quem as contrata. Desde há largos anos que estas profissionais erigiram um gigantesco e intrincado sistema de recolha, armazenamento e análise de informações pueris. São uma espécie de FBI de Donas Adelaides, que investiga a fundo os recursos, usos e costumes dos seus patrões.

 

- Hoje vem almoçar a casa…

- Não.

- Vai com certeza almoçar com a sua mulher…

- Sim.

- Ela deve trabalhar ali para a baixa…

- Sim.

- Cá para mim ela andou na universidade...

-Sim.

- Conheceram-se lá…

- Não.

- Foi na discoteca se calhar…

 

Para iludir esta prática macabra há apenas uma opção: desresponder, isto é, retribuir à despergunta com réplicas evasivas, discursivos vagos destituídos de qualquer tipo de pista em relação à informação que o desperguntador quer obter. Uma das técnicas mais fiáveis para confundir o manhoso interlocutor consiste em responder às desperguntas com sucessivas interrogações etéreas. No final o saqueador acabará por sucumbir à sua viciosa curiosidade e perguntar directamente aquilo que quer saber.

 

 - Ouvi dizer que foste despedido…

- Ouviste?

- Foi o Pimentel que me disse…

- O Pimentel? 

- Coitado de ti…

- De mim?

- Sim… foste despedido ou não?! É verdade ou é mentira?! Diz-me, por favor! Estou a ressacar por uma dose de informação acerca da vida alheia! Admito que estava a desperguntar, sou uma pessoa metediça e dissimulada, mas diz-me por favor se estás ou não desempregadooooo!

- Desculpa lá, mas não te digo. Vai desperguntar para outro lado. 

 

FPC

 

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