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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

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Expressionismo lusitano

Tenho muita pena mas já é tempo de alguém meter as expressões da língua portuguesa na ordem. Aproveitando a frouxidão da Autoridade Reguladora das Expressões Populares (AREP), têm sido lançados nas últimas décadas produtos linguísticos tóxicos geradores de desordem e incerteza no mercado comunicacional português. Usamos todos os dias expressões das quais não conhecemos a origem e nem sempre alcançamos o sentido. Desde que funcione está tudo bem. Mas até que ponto este apartamento crescente entre a expressão, por um lado, e a sua origem ou justificação semântica, por outro, não estará a criar uma perigosa bolha linguística?

 

Comecemos pelas expressões “tuta-e-meia” e “meia-leca”. Utilizamos estas palavras para nos referimos a pouca coisa e a alguém de baixa estatura, respectivamente. Mas alguém sabe o que é uma tuta? E uma leca? Eu não sabia e o caro leitor também não, escusa de estar para aí todo armado em sabichão de dedo no ar a dizer que sabe. Como este blogue tem uma vocação de serviço público, lancei-me numa ambiciosa investigação etimológica. Em relação à tuta, descobri que a dita advém de macuta, que mais não é do que uma antiga moeda angolana. A erosão causada pelo engenhoso uso quotidiano da linguagem implicou que a macuta encolhesse para tuta. Tal como a prostituta e a puta. Leca, por seu lado, não apareceu no Google, mas depois de muito reflectir durante cerca de cinco segundos penso que não estou a fugir à verdade se afirmar que a origem desta palavra remete para o apresentador de programas infantis da década de 1980, Lecas. Leca significa baixo porque o Lecas dedicava-se a uma actividade profissional orientada para um público dotado de uma estatura média reduzida. Parece-me uma teoria convincente, inatacável até.  

 

O problema que enfrentamos não se resume ao facto de utilizarmos expressões cujas palavras que as constituem desconhecemos. Em muitos casos as próprias expressões não fazem qualquer sentido. Por exemplo, porque é que se considera que algo ou alguém muito bonito é “lindo de morrer”? É suposto morrermos quando contactamos com a beleza? Em princípio quando vejo uma miúda jeitosa fico cheio de vida, não me apetece nada falecer. Quando a beleza é demasiado transbordante admito poder ser surpreendido por um desfalecimento momentâneo, mas morrer mesmo está fora de questão.

 

E com que fundamento dizemos que estamos “mortinhos por” fazer coisas que nos comprazem? A expressão não é feliz desde logo do ponto de vista figurativo. Os mortos não são conhecidos por terem uma vontade pulsante, por manifestarem desejos assolapados, por serem irrequietos. Pelo contrário, são em regra gente bastante serena. Esta expressão padece também de graves limitações metafísicas. Em princípio quem morreu já não pode desfrutar a vida propriamente dita. Digo eu que nunca morri até agora, embora os fanáticos religiosos garantam que na morte é tudo à grande. Não admira que estejam mortinhos por morrer.

 

Mais dois exemplos de expressões que na verdade não fazem muito sentido. O primeiro é quando mandamos alguém para “o raio que te parta”. Toda a gente sabe que os raios, essas cuspidelas eléctricas das nuvens, não partem as pessoas, fulminam-nas, tostam-nas, metem-lhes o cabelo em pé. O outro caso é a expressão “diz o roto ao nu”, pela qual negamos a alguém a legitimidade para criticar ou troçar de uma terceira pessoa, devido ao facto de entendermos que ambas partilham certas características mentais ou certos costumes. Peço imensa desculpa, mas a semelhança entre um roto e um nu é a mesma que existe entre o tipo que tem um dente partido e um desdentado. O roto conserva, portanto, todos os direitos de censurar o nu.

 

Parece-me que o expressionismo lusitano tem, igualmente, cedido ao facilitismo fonético. Vejamos a expressão “não bate a bota com a perdigota”. A minha pergunta é: por que razão fomos buscar uma bota e uma jovem perdiz para sentenciarmos que algo não faz sentido ou está errado? Que tipo de relação antinómica existe entre a bota e a dita ave? Só se for o facto de os pássaros não usarem sapatos. Mas então nesse caso sugiro que comecemos a dizer também “não bate o pinguim com o gin”, “o pato com o fato”, “o bingo com o flamingo” ou o “piano com o tocano”.

 

Guardo para o fim uma reflexão acerca de “Fulano, Beltrano e Sicrano”. Quem são ao certo estes indivíduos? Quando nos referimos a várias pessoas, e não sabemos o seu nome ou queremos evitar o esforço de os nomear a todos, convocamos normalmente o afamado trio. Habituei-me a pensar neles como uma banda musical. Contudo, tal como Robbie Williams em relação aos Take That, Fulano tem vindo a eclipsar Beltrano e Sicrano. Veja-se que mesmo quando nos queremos referir a várias pessoas usamos a redutora expressão “fulanos”. Então e os outros dois? É indiscutível que Fulano é um artista com muita qualidade e ninguém está aqui a querer retirar-lhe o mérito por tudo aquilo que alcançou ao longo da sua carreira. Mas sem Beltrano e, sobretudo, sem Sicrano não teria sido possível a Fulano chegar onde chegou. Não há grandes fulanos sem o apoio de grandes beltranos e sicranos.  

 

FPC

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