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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Querida hérnia

A minha querida hérnia despontou há uns anos atrás. Nesses tempos as pessoas apelidavam-me insidiosamente de leitão, pata-negra, foca, baleia, saco-de-banha e mimos adjacentes. Perante o alarmante derretimento das calotas da minha autoestima e a proeminência dos quase 100 quilos, decidi reduzir a abundância de gordura que tinha acumulado no acém, na alcatra, no pojadouro, na vazia e na própria pá. Para expulsar do corpo esse excesso de toucinho dediquei-me ao desporto e o desporto retribuiu-me com uma hérnia.

 

Graças à minha querida hérnia percebi que o desporto era o caminho mais fácil, a rota da superficialidade, o trilho da negação existencial. Enquanto os outros censuravam a redondeza da minha morfologia, a Herny aconselhou-me, por via das dores que me causava nas costas, a deixar o exercício e a focar-me em actividades mais espirituais.

 

- O que importa é quem tu és interiormente. E tu, Frederico, és uma pessoa bonita por dentro. Por fora és gordo, mas se calhar é por isso que o teu interior é tão macio e confortável. Debulha esses secretos de porco sem peso na consciência, meu menino!

 

Hoje sinto remorsos por ter aprisionado a minha querida hérnia 30 e tal anos no perímetro das vértebras, naquele tugúrio ósseo que lhe tolhia a possibilidade de contactar com os vários fios nervosos que nos atravessam a espinha. Depois de décadas de cárcere, ela pode agora contemplar a bonita paisagem de toda uma zona lombar e tocar arpa no nervo ciático que por ali passa. Estamos a falar de notas neuro-musicais que me cobrem o corpo de sofrimento desde a região sacroilíaca (aquele território que fica imediatamente acima das nádegas) até quase ao pé. Tenho pena de ser o único espectador deste concerto, porque a Herny é de facto uma artista notável. 

 

Apesar da paixão que nos uniu desde a primeira dor, a verdade é que a nossa relação tem vindo a ganhar densidade. Nos primeiros tempos a Herny era apenas um prolapso que queria iniciar a sua vida sentimental. Inclinava-se em direcção aos nervos que lhe passavam à porta de casa para por essa via chamar a minha atenção. Embora mostrasse já nessa altura o seu espírito aventureiro, a minha querida hérnia era ainda bastante tímida e pouco se afastava do perímetro vertebral. Com o tempo fomo-nos conhecendo melhor, a cumplicidade e a dor aprimoraram-se. O prolapso deu lugar a uma protusão, ou seja, a uma hérnia adolescente que já gosta de dar as suas voltas. Às vezes sinto-me um bocadinho pedófilo por não querer que esse cândido botão gelatinoso evolua para uma hérnia adulta toda matulona, mais reivindicativa da minha dolorosa atenção, uma companheira amadurecida capaz para me paralisar a perna. Se as coisas estão bem assim para quê mudar?    

 

Desde o início que tive uma ideia muito aproximada do bairro onde a minha princesa habitava. Mesmo assim não resisti a ir a um neurocirurgião para obter a sua morada exacta.

 

- A sua hérnia está nas vértebras Éu4-Éu5.

- Onde?

- Éu4-Éu5.

- Desculpe, o doutor está a sentir-se bem?

- Estou, mas não consigo dizer os éus! Olhe aqui na figura.  

- Ah, vértebras L4-L5!

- Sim, na parte de baixo da coúna.

- Onde?

 

Não foi só no plano emocional que a Herny mudou a minha vida. Ela alterou também a forma como analiso a estrutura social. Sempre pensei que os trabalhadores mais massacrados do ponto de vista físico eram os pedreiros, os serventes, ou a malta das mudanças que alomba máquinas de lavar e frigoríficos pelas escadas dos prédios acima. Afinal o meu diagnóstico estava errado. Todos os médicos e fisioterapeutas que consultei me alertaram para a violência corporal que implica trabalhar sentadinho em frente ao computador. Dedilhar teclas, premir o botão do rato, abrir e fechar o computador, olhar para o tecto, fitar o Facebook, atentar no relógio a ver se já é hora de findar a jorna são, na verdade, minas muito difíceis de escavar. Escavo-as diariamente com sacrifício e orgulho neo-proletário, sempre amparado pela companhia da minha querida hérnia  

 

FPC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prelúdios fraseológicos

Tenho andado de olho no início das frases e o diagnóstico que faço é preocupante. Habituámo-nos a pensar neste momento expositivo inicial como uma entidade pacata, neutra, altruísta, comprometida apenas com a fluência escorreita e honesta do raciocínio. Mas as coisas estão a mudar. O início da frase é hoje um terreno cada vez mais usado para enganar, dissimular, confundir, um pântano que enlameia a dignidade e a seriedade fraseológica.

 

Um dos ardis mais comuns no início da frase é a falsa declaração de humildade, pela qual se assume de forma aparentemente modesta a destituição de um estatuto ou conhecimento, para de seguida se reclamar esse acervo. “Eu não sou economista, mas” e “embora não conheça o dossiê a fundo, não tenho dúvidas em afirmar que” são exemplos típicos deste engodo. Num primeiro momento fica-se com a sensação de que estamos perante uma pessoa que sabe quais os limites do seu conhecimento. Mas após este introito furtivo somos rapidamente atacados por afirmações tonificadas e imperialistas. O falso humilde começa por se fazer de morto para depois apunhalar o interlocutor pelas costas. No fim ficamos a saber que ele é que sabe, embora tenha dito que pouco ou nada sabia.

 

O prelúdio fraseológico “o meu amigo sabe melhor do que eu” eleva esta matreirice ao paroxismo. Aquele tipo com quem não concordamos nada e em relação ao qual até sentimos algum desprezo, afinal considera-se nosso amigo. Tratamos mal quem está emocionalmente ligado a nós. Pensamos que talvez essa pessoa esteja sozinha no mundo, sem carinho nem afecto. E ainda por cima elogia publicamente a nossa sapiência e brilhantismo. Perante estas momices amansamos, baixamos a guarda, e acabamos por deixar entrar o cavalo de madeira.

 

Importa também destacar a estratégia de antecipação do mérito discursivo. Neste caso, o orador desqualifica aquilo que foi dito pelos outros e anuncia a pertinência do que vai dizer antes de apresentar as suas ideias e argumentos. “Vamos lá ver bem as coisas”, “é preciso olhar com rigor para os números”, ou “separemos o essencial do acessório” são alguns exemplos deste tipo de prelúdio. Se na falsa declaração de humildade o orador procura seduzir a audiência, neste caso a sua estratégia é eminentemente belicista. Este expediente é usado por quem não tem rigorosamente nada para dizer e, no limite, por quem não sabe sequer do que está a falar. Para escamotear este facto recorre-se a um discurso circular, labiríntico, destituído de conteúdo. 

 

- Como é que olha para o problema do desemprego?

- Ao contrário do sotôr Vilela, acho que temos de recentrar o debate naquilo que é essencial. Olhemos para os factos. Filtremos o ruído e ouçamos com atenção aquilo que a realidade nos diz. Estudemos os dossiês com honestidade intelectual. Tratemos o desemprego como problema e não como solução.

- Sim, mas…

- O desemprego está a jusante de um conjunto variado de questões que estão a montante. Sejamos honestos. Sejamos sinceros. Sejamos verdadeiros. Sotôr Vilela, não vale a pena tapar o sol com a peneira. O sotôr quer sol na eira e chuva no nabal. Diz uma coisa às segundas, quartas e sextas e o seu contrário às terças, quintas e sábados. E aos domingos diz outra ainda diferente!

 

Um terceiro estratagema consiste na apresentação de pergaminhos. Neste caso estamos a falar de pessoas que por terem uma ideia muito difusa de um dado tema, ou simplesmente porque são exibicionistas, sentem necessidade de começar as suas intervenções comunicando as suas credenciais formais. É isso que faço sempre que me pedem alguma opinião sobre questões de direito.

 

- Como jurista, parece-me que o novo regime de resolução bancária é uma questão bastante complexa e intrincada. Podia tentar explicar mas vocês não iam perceber.

- E qual é a tua opinião acerca desse tema enquanto frequentador de tabernas?

- Como frequentador de tabernas, acho que se devia dar um tiro na nuca dessa malandragem toda.

 

FPC 

 

 

 

 

 

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