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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Tofu

A crítica do consumo de carne tem ganho popularidade. Defende-se que não é bonito andarmos a matar animais só porque os queremos comer. Os animais são nossos amigos, têm sentimentos, capacidade de empatia, inteligência. Ao contrário dos responsáveis europeus. Por isso devíamos demonstrar mais civilidade para com eles.  

 

Seria sem dúvida preferível deixar a vaca mastigar sossegada a sua erva orvalhada, o porco as suas reluzentes bolotas ou o cão o industrial Royal Canin. O problema é que precisamos mesmo de realizar a xixosíntese para sobreviver. Concedo que é possível arrastar a existência durante alguns dias ingerindo apenas vegetais, plantas, ovos, tofu, seitan e tóxicos equivalentes. A questão é que ao fim de uma semana o organismo humano cede e as pessoas começam a tocar batucos, inscrevem-se em movimentos anti-globalização e, pior ainda, tornam-se praticantes de yoga. Uma desgraça.

 

Os vegetarianos, macrobióticos, vegans e mesmo algumas pessoas mentalmente sãs compadecem-se com os animais, mas não vejo ninguém atento aos problemas identitários do tofu. “O que é ser tofu?”, interrogam-se milhares de milhões de cubinhos brancos sensaborões. Debaixo daquela textura mimosa esconde-se o medo, a inquietação, o desespero. Quem beneficia com esta tragédia? Os psicólogos, obviamente.

 

- Faça favor de se deitar no cadeirão Tó. Como é que se sente esta semana?

- A angústia teima em não passar. Sou um alimento sem sabor próprio, preciso sempre de ser regado por um molho qualquer. O queijo fresco, por exemplo, que também é todo branco, tem identidade própria. Há quem nem lhe deite sal. Não sei de onde vim…

- Tó, você veio da soja…

- Isso é o quê? Uma árvore, um animal?

- A soja é… uma coisa. Olhe, pelo menos você não tem aquela consistência pastosa e o aspecto a vómito do seitan.

- Isso consola-me um bocadinho. Mas mesmo assim acho que me vou matar.

 

O suicídio é a escapatória final que muitos Tós deste mundo encontram para a depressão profunda que sangra as suas existências. Antes disso vem o álcool, as drogas, a prostituição, a criminalidade. Lembre-se desta tragédia brutal sempre que misturar o tofu com molho de caril ou o saltear com erva-doce. Se calhar vai perder o apetite. Ou talvez opte por um belo bife da vazia.     

 

FPC

 

 

 

 

 

 

 

 

Enfim

Perde-se demasiado tempo a analisar o conteúdo daquilo que é dito em vez de nos centrarmos naquilo que realmente importa: a aparência do discurso. É com o intuito de combater a mesquinhice e a futilidade daqueles que se entretêm a discutir os números do desemprego ou o futuro do país que me proponho inaugurar neste espaço de liberdade, no qual apenas eu escrevo, um curso de Estilologia Linguística. A primeira unidade curricular deste mestrado sobre o estilo do linguajar vai debruçar-se sobre os bordões de prestígio, isto é, as muletas vocabulares que usamos com o intuito de sermos respeitados, admirados pelos outros.

 

Comecemos pelo sempre irritante “enfim”. Usado no início ou no fim das frases, este bordão linguístico visa quase sempre mostrar ao interlocutor que o orador é uma pessoa que sabe imensas coisas e tem uma capacidade reflexiva bestial. Quando usado no início de uma intervenção, “enfim” deixa antever que o orador domina o tema em questão e que se está a preparar para fazer uma síntese absolutamente brilhante sobre um tema que é, ao que parece, uma realidade vastíssima e complexa. Neste caso, “enfim” tem uma função estilística semelhante ao “ora bem”, embora seja muito mais eficaz ao nível do prestígio reflexivo que granjeia face a este bordão mais cabotino. “Enfim” pode também ser semeado no final de uma frase ou intervenção. Nesta situação, significa que acerca de um determinado assunto haveria muito mais a dizer, mas que por falta de tempo ou por incapacidade intelectual da audiência não vai ser possível ao orador explanar em pleno toda a sua sapiência. Mas olhemos criticamente para esta bengala discursiva. Um estudo recente levado a cabo pelo departamento de Estilologia Linguística deste blogue permitiu concluir que o bordão “enfim” é usado pelo ignaro palrador com um objectivo muito simples: tentar encobrir a pobreza e volatilidade do discurso que vai ser ou foi proferido.

 

Interessa em segundo lugar introduzir o “quer dizer”. Quem começa as frases utilizando este utensílio anuncia-se como um descodificador da realidade. São pessoas que estão ali para dizer o que as coisas querem dizer. Ou então para sintetizar o que acabaram de dizer. Neste caso, após proferir um discurso demasiado técnico ou reflexivo, o orador tem a amabilidade de simplificar o conteúdo das suas palavras para uma audiência demasiado térrea para alcançar voos analíticos tão altos. Mas quando se analisa finamente a utilização deste bordão conclui-se que ele é, quase sempre, um embuste. Por um lado, o orador não quer dizer nada de diferente em relação ao que foi dito ou sugerido por outras pessoas, limita-se a simular que tem um ponto de vista diferente e original. Diz apenas aquilo que os outros já disseram, mas servindo-se de palavras diferentes. Por outro lado, é muito raro que “quer dizer” dê lugar a qualquer síntese ou explicitação de ideias próprias. Quase sempre surge como a antecâmara de uma repetição dormente e enganosa do que o próprio já disse.

 

Depois temos o ululante “bom”. Embora possa ser utilizado no início de uma resposta, “bom” revela todo o seu potencial estilístico quando é convocado para intermediar os vários pontos de um argumento. Uma das curiosidades na utilização deste bordão prende-se com o facto de ser o próprio orador a classificar como “bom” aquilo que foi por si dito, quase sempre de forma exaltada, com direito a levantamento dos braços e ligeiro salto na cadeira (se for esse o caso). Diogo Freitas do Amaral é o rei incontestado deste sub-estilo, mantendo ainda hoje o recorde ibérico de 17 “bons” durante o desenvolvimento de um único argumento.

 

- No meu entender Portugal atravessa uma crise gravíssima… bom! Sendo assim, é necessário fazer face às urgências do presente sem pôr em causa os desafios do futuro… bom! Mas para que isso aconteça é necessário pôr a economia do país a mexer sem deixar os mais fracos para trás… bom!

 

Não é possível acabar esta aula sem fazer uma referência ao utensílio “eu costumo dizer que”. Ao contrário da maioria de nós, que emitimos opiniões avulsas, desgarradas, sem tradição, as pessoas que referem que costumam dizer coisas entendem que têm um olhar original e coerente sobre uma dada realidade. Procuram através da invocação do hábito de dizer certas coisas legitimar opiniões e reclamar um polo opinativo próprio. Eu costumo dizer que isso é um bocado arrogante. Mas enfim…

 

FPC

 

 

 

 

 

 

 

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