Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Tiro ao pato

Já perdi a conta às vezes que fui à caça na minha vida. Essa actividade tem-se realizado quase sempre nas savanas do Pingo Doce ou do Continente, em especial nas secções de carnes. É sem temor que persigo e capturo animais com centenas de gramas de chicha, tais como bifinhos de peru, entremeada, entrecosto, costeleta, piano, leitão, mão de vaca para cozer, ou pato para fazer arroz de pato. Não raras vezes aventuro-me também na charcutaria, no encalço de espécimes fugidios como o fiambre, o presunto, o chouriço, o patê e as alheiras. A captura destes bichos não é fácil, mas eu uso uma técnica infalível. Finjo que estou interessado nos queijos ou no salmão fumado, e quando eles dão por isso já estão imobilizados no meu carrinho das compras.

 

A ida ao supermercado realiza-me enquanto predador, mas recordo com alguma nostalgia duas ocasiões em que participei em caçadas a animais que ainda não tinham sido devidamente esquartejados e embalados. Devo-o ao meu avô Manel, que não é recordado nas matas angolanas como um emérito defensor dos direitos dos animais. Habituou-se lá à caça grossa, teve de se contentar com alvos mais delgados quando regressou a Portugal. Inevitavelmente as suas façanhas africanas povoaram a minha imaginação na infância. O avô lutava contra leões, pacaças, jiboias gigantes e ganhava sempre. De maneira que também eu queria brincar à caça.

 

Na primeira incursão, num canavial perto da vila do Louriçal, fiquei algo desapontado. A caça afinal não era uma aventura plena de correrias e perigos eminentes. Consistia, isso sim, em ficar de bico calado durante duas ou três horas, camuflado nas vestes da flora local, à espera que a passarada se decidisse a vir ao encontro de um comité de boas-vindas desejosa de lhe espetar umas valentes chumbadas no corpinho. A imobilidade e o silêncio são sacrifícios difíceis de aceitar por uma criança. Foi por isso que quando avistei uma nuvem de seres alados a vir na nossa direcção saltei como uma mola do esconderijo opressor e gritei encarniçadamente “atira-lhe avô!”, “atira-lhe avô!” Os pássaros, que são desconfiados e estão habituados a estas emboscadas, identificaram o ardil que ali lhes estava a ser montado e voaram trocistas para poiso mais seguro.

 

- Porra Manel, porque é que tinhas de trazer o miúdo!

- Puto de merda, devias é levar uns bons açoites nesse cú para aprenderes a estar calado!

 

O fim de tarde de caça estava perdido para mais de uma dezena de indivíduos muito mal-educados que entretanto começaram a emergir da vegetação. Azar da foca. Se tivessem brincado comigo nada daquilo teria acontecido.

 

O meu avô Manel não desistiu logo de mim. Ofereceu-me uma pressão de ar e levou-me numa nova aventura, desta vez lá para os lados de Vendas Novas, no Alentejo. Para um miúdo de sete ou oito anos qualquer programa que envolvesse uma espingarda, um avô a empunhá-la e um dia a calcorrear furtivamente o campo é uma aventura irresistível. Ir à caça era como jogar à apanhada, só que neste caso um dos jogadores podia apanhar os outros servindo-se dos cartuchos de uma espingarda de dois canos. Imagino que os animais se indignassem com tal manigância. Mas para o meu avô não havia ditas. E foi sem grandes conversas que, a meio da tarde, espetou ternamente uma chumbada nas penas de um pato bravo.

 

- Apanhei o filha da… o patinho.

Como quem não tem cão caça com neto, o meu avô mandou-me ir apanhar a presa.

- Busca Frederico, busca! Ali ao pé do arbusto! Fila-a bem que depois o avô dá-te uma pastilha!

 

E lá fui eu na minha missão canina. Primeiro com a cauda a abanar de alegria. Quando me apercebi que a umas centenas de metros estava um animal ferido e que a minha missão era capturá-lo, a moral esmoreceu. Finalmente, ao avistar o bicho, arrependi-me de ter ido brincar à caça. A minha moral estava em baixo. O pato lançou-me um olhar aborrecido. Depois começou a menear o bico como que a desaprovar o meu desplante predatório. 

 

- Estava aqui a dar um passeio tão prazenteiro e tinham logo vocês de me vir estragar a tarde. Lamentável é o que eu lhe digo, lamentável.

 

 A tarde estava realmente boa e era normal que o pato estivesse um bocado rezingão depois do transtorno que lhe causámos. Mas mesmo atingida, a abarbatanada ave ainda conseguiu escapulir-se para debaixo de umas silvas e daí para destino incerto. Nunca mais a vi. Muito provavelmente pediu a um pica-pau para lhe retirar os projécteis da asa e viveu feliz para sempre com a sua família num laguinho acolhedor cheio de nenúfares. De qualquer forma, o cão incompetente não teve direito nem a uma festa na cabeça do dono nem à pastilha prometida pelo avô.

 

Depois de uma jornada que começou no breu das cinco da matina e só terminou quando a noite estava novamente desperta, a nossa dupla foi sem troféus ao encontro dos demais caçadores. Eles eram javalis, lebres, patos, melros, uma arca de Noé exibida na cara de quem trouxe na cinta apenas um belo passeio pelas planícies alentejanas. Costuma-se dizer que não há duas sem três. No meu caso não chegou a haver uma terceira tentativa. A bem da produtividade e do prestígio do meu avô Manel. 

 

FPC

 

  

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub