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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Os TPC’s do Expresso

No início do século XXI a imprensa escrita nacional lembrou-se de aliciar a sua minguante clientela com produtos culturais de baixo preço. Quem comprasse o jornal tinha o direito de opção sobre um livro, um DVD, um CD e outras quinquilharias. Surgiu por essa altura uma turba de viciados em produtos culturais. Depois da heroína nos anos de 1980 e 1990, Portugal enfrentou a chaga da culturaína. O palco deste flagelo social transferiu-se do Casal Ventoso para as bancas dos quiosques.

 

- Desenrasca-me lá aí o jornal e uma dose de literatura russa.

- Chaval, tenho aqui produto do bom acabadinho de chegar do Diário de Notícias.

- Puto, já não tens nada da colecção Mil Folhas do Público?

- Sóce, só o Nabokov.    

- Népia, com isso não curo a ressaca. Precisava mesmo era de um livrinho do Dostoiévski!

 

No início os consumos eram compulsivos. Ou melhor, a compra era compulsiva. A audição, o visionamento, mas sobretudo a leitura desses produtos, nem por isso. Os portugueses foram tomados pelo vício do colecionismo. Por exemplo, a aquisição de livros da história da arte era feita com a mesma curiosidade intelectual com que as crianças procuram concluir uma caderneta de cromos da Panini. Ainda assim, foram dados passos muito relevantes na cultivação da população portuguesa.

 

- Adoro o Picasso! Ele é o número um!

- É o teu pintor favorito?

- Não faço ideia. Sei é que é o nº 1 da colecção da Taschen. O nº 2 é o Van Gogh, o três é um gajo que tem um nome esquisito… tenho-os a todos!

 

Depois desta vertigem inicial, o comprador de anexos culturais tornou-se mais sóbrio e selectivo. Perante o pudor do lado da procura, surgiu uma nova estratégia por parte da oferta. Se antes o leitor de jornais tinha a possibilidade de escolher se adquiria ou não um dado produto, essa faculdade começou a ser-lhe negada. Quem compra um jornal sujeita-se ao bónus gratuito que nele vem alapado. Um abuso de confiança, portanto. Nenhum órgão da imprensa escrita levou tão longe este assédio cultural como o semanário Expresso.

 

O Expresso, como qualquer semanário, é lido por uma cambada de mandriões que se furtam ao bulício da leitura diária de jornais para depois, no fim-de-semana, comprarem langorosamente o resumo da matéria dada. São alunos pouco assíduos que aparecem apenas para as aulas de revisões. Inflamado com a preguiça e indolência dos seus pupilos, o stôr Ricardo Costa, actual director do estabelecimento, tem vindo a seguir uma política de trabalhos para casa bastante agressiva. Desde logo, uma série de biografias sobre figuras históricas. Pessoa, Churchill, Picasso, Keynes, enfim, as Lili Caneças da História Universal. Um livro por semana aconchegado no meio do caderno principal, do caderno de economia, da revista, das ofertas de emprego, das costeletas de borrego e de meio quilo de batatas.

 

A crueldade de Ricardo Costa atingiu o paroxismo com a fasciculização dos TPC’s. Frustrado por não ter conseguido fazer carreira como vendedor de colecções da Planeta Agostini, tenta agora superar essa angústia impondo aos leitores do Expresso livros de história oferecidos às fatias. Foi assim que serviu uma História de Portugal, uma história do século XX, uma série de entrevistas a figuras marcantes, a história da II Guerra contada pelo Churchill e a brincadeira parece que não vai ficar por aqui. Se Arlindo Matos ficou conhecido nos tempos do PREC como “o grande educador da classe operária”, Ricardo Costa parece querer aspirar à condição de “admirável cultivador da classe média”. Defendo que lhe assenta melhor o título de “o irmão do melhor amigo do António José Seguro, que não pára de piscar os olhos quando está ler o teleponto”. Mas isto é apenas uma opinião pessoal.

 

O problema que se coloca em relação aos livros de história é que os seus titulares precisam mesmo de os ler. De facto, a sua colocação numa dada prateleira implica que quem os expõe conheça o seu conteúdo. É preciso saber as datas. Identificar os protagonistas. Estar a par das estórias da história. Caso contrário incorre-se no crime de burla intelectual. No caso do romance esta questão não se coloca, porque é sempre possível disfarçar a ignorância referindo que “neste livro o autor conseguiu remexer nas entranhas da maldade humana” ou que “o estilo do autor é satisfatório, mas a trama ficcional é demasiado rudimentar”.

 

Dir-se-á que o rebelde leitor do Expresso pode simplesmente depositar os TPC’s nos contentores de reciclagem de papel. O problema que se coloca é que os contentores da reciclagem do papel se recusam a degustar livros de história, alegando que a acidez da maioria dos eventos retratados neste tipo de literatura lhes provoca asia e, não raras vezes, soltura. É desumano infligir esse sofrimento a um contentor do lixo.

 

Consciente desta teia, Ricardo Costa, o tirano, vai continuar a martirizar os leitores do Expresso com TPC’s escravizantes. Nós, os madraços que lêem este semanário, sabemos que o consumo de jornais diários não é uma solução viável. Optar pelo Sol também não. Ter de fazer TPC’s é chato, mas levar com o José António Saraiva ainda é pior.  

 

FPC

 

O comediante da rua Luciano Cordeiro

A rua Luciano Cordeiro em Lisboa, onde moro, tem um comediante que conta sempre a mesma piada. Desde há décadas que, de segunda a sábado, presenteia os espectadores que acorrem beatificamente ao seu clube de stand-up com números de comédia irresistíveis. A sala do espectáculo não tem cadeiras nem iluminação. O artista não usa sequer microfone. E, ao contrário do que sucede na generalidade das melhores casas de variedades, não é preciso comprar bilhete para se assistir ao número. Basta adquirir um pente, um corta-unhas, um detergente, ou um piaçaba.

 

Portador de uma longevidade que se situa em parte incerta entre os 75 e os 90 anos, o comediante da minha rua usa uma careca proeminente e uns olhos azuis-claros, cujo brilho irradiante é devidamente esbatido pelos óculos garrafais com que gosta de se equipar. Magro, mais ou menos baixo mas não muito, ombros retesados para a frente, veste-se com roupas vetustas que assentam bem na sua personagem. Ninguém sabe ao certo qual é o seu nome administrativo. Talvez já nem ele se recorde. No mundo do espectáulo é conhecido apenas como o Senhor João, proprietário e empregado de balcão de uma das mais antigas drogarias da civilização ocidental.

 

O espectáculo oferecido pelo Senhor João é único no mundo. Desde logo pelo conceito que o suporta. Não se trata de um número clássico de subida a um palco do qual se metralha a assistência com piadas nem sempre certeiras. O palco desta estrela é a sua vida quotidiana. O espectáculo que oferece consiste em abrir todos os dias a sua drogaria e trabalhar a atender clientes de manhã à noite. Diz bom dia, boa tarde, boa noite aos seus fregueses. Acena afirmativamente a quem lhe pergunta se por acaso não tem pedra-pomes ou uma ratoeira, lamenta mas já há algum tempo que deixou de vender comida para piriquitos, vasculha numa minúscula arrecadação a arca perdida onde gosta de guardar os envelopes de papel, pendura-se perigosamente no topo de uma escada de madeira para procurar, no móvel poeirento, umas pilhas “das gordas” que a Dona Fernanda está a precisar para o rádio. O Senhor João veste a banalidade da vida quotidiana de um dono de drogaria que procura satisfazer as necessidades mundanas dos seus clientes. Sobriamente. Até ao momento em que desfere a sua inevitável piada.

 

Na última vez que fui ao seu estabelecimento comprei uma lima para as unhas (não era para mim, era para uma amiga que me pediu para lhe comprar uma… a sério! As minhas unhas devoro-as à dentada, à homem!). Como sempre, fui brindado com a inenarrável experiência oferecida por aquela que é, na opinião de muitos, a figura maior da comédia de toda a freguesia de Santo António. Aqui fica o relato fiel do espectáculo.

 

- Senhor João, quero levar uma lima para aparar as unhas. Já pareço uma pantera selvagem com estas garras tão afiadas.

- Aqui tem. São 14 euros e cinquenta.

- 14 euros e cinquenta?! Mas essa lima é feita de ouro ou quê?

- Não sei. Só sei que são 14 euros e cinquenta. Agora tem de a levar.

- Claro que sim, claro que sim…

É no momento em que o inaceitável pagamento está na eminência de ser concretizado que o Senhor João revela o cómico ardil que esteve ali a engendrar.

- Não é nada, é só um euro e quarenta e cinco. Apanhei-o! Ahahahahahahahahahaha.

 

Ri-se ele e o público também. Mais ele do que o público, mas a galhofa é sempre garantida. Já perdi a conta às vezes em que tive o privilégio de assistir a este número. Uma vez pediu-me 30 euros por um conjunto de sabões que na verdade custava três. Noutro espectáculo exigiu-me mais de 50 euros por um tubo de cola impermeabilizante que, veio depois a saber-se, custava uns humildes cinco euros e pouco. Estamos, portanto, a falar de comédia absolutamente desconcertante. A “lenda”, como gosto de o tratar, começa por causar surpresa no cliente ao pedir um preço escandaloso pelos seus produtos. Depois mostra às suas vítimas que o desembolso dessa quantia é inevitável. Por fim, quando tudo parece perdido, desmascara a farsa. Elimina assim a indignação que enche a alma do comprador e, perante a subtileza da partida, liberta uma torrente de riso convulsivo. Se isto não é um génio, então vou ali já venho.

 

Além de oferecer comédia, o espectáculo do Senhor João é também uma excelente aula de matemática. Como sei que o primeiro preço que ele pede é sempre 10 vezes superior ao real, tento antecipar mentalmente o dinheiro que tenho de desembolsar. Mesmo quando se trata de quantias consideráveis. No início do ano fui lá comprar um escadote. Depois de ele me ter pedido marotamente 500 euros pelo produto, consegui calcular em menos de meio minuto que o preço que teria de desembolsar era de apenas 50 euros. Sem calculadora.     

 

FPC

 

 

Os insuspeitos benefícios da pobreza

A austeridade custa um bocadinho mas os seus benefícios são inatacáveis. A boa notícia desta semana prende-se com o novo aumento da pobreza em Portugal. Ao contrário do que o senso comum mais distraído poderá pensar, a pobreza tem efeitos muito positivos na forma como as sociedades funcionam. É pena que para haver pobreza em abundância muitas pessoas tenham de passar pelo incómodo de serem pobres. Mas esse é um insignificante sacrifício individual de que a sociedade como um todo beneficia. Pelo menos a parte dela que não é pobre.

 

Um primeiro aspecto a destacar na benignidade da pobreza para a sociedade prende-se com a diminuição no tempo de espera nas filas do supermercado. Como os pobres não têm dinheiro para comprar comida, as filas no supermercado são mais pequenas. E, mesmo quando vão ao supermercado, levam pouca coisa, o que acelera o atendimento. Os mais piegas dirão que os pobres passam fome. Passos Coelho preferirá considerar que são gente frugal.

 

O empobrecimento das populações tem também virtudes no plano político. Por egoisticamente preocupar-se apenas com a sua sobrevivência individual e familiar, o pobre tende a abster-se de participar no debate político. Esse desmazelo faz com que tenha pouca força colectiva e, portanto, nenhuma capacidade para inscrever os seus problemas e exigências na agenda política. Podemo-nos assim concentrar, sem distrações, nas coisas realmente importantes, como a reforma da lei eleitoral ou a reposição integral das subvenções vitalícias a ex-políticos.

 

A pobreza é também a melhor amiga do desenvolvimento económico. Quanto mais pobres as pessoas forem, menos atreitas são a impertinências reivindicativas. Comem (quando podem) e calam. Mais fica para os ricos. Recompensa justa e meritória, em particular no caso daqueles capitalistas patriotas que através da especulação financeira e da fuga e evasão fiscal têm ajudado a economia portuguesa a prosperar.

 

E que dizer da receita fiscal? Tal como o perspicaz ministro Pedro Mota Soares procurou sugerir, boa parte dos beneficiários de prestações mínimas de sobrevivência tem estilos de vida faustosos, adornados por barcos e carros de valor superior a 25 mil euros. Os pobres são na verdade ricos. Se começássemos a tributar convenientemente os seus aviões particulares, as suas luxuosas mansões e as acções da Apple que trazem na algibeira alcançaríamos com facilidade o tão almejado saldo orçamental positivo. Deixemos a abnegada carteira dos ricos em paz. Concentremo-nos, isso sim, na taxação das grandes fortunas dos pobres.

 

As sociedades que têm muitos pobres são também as que registam níveis mais elevados de solidariedade social. Ainda no outro dia emocionei-me com o altruísmo de um concidadão que, estando a comer um naco de bife da vazia, abdicou de ingerir uma batata frita para a doar a uma miúda que veio pedir à sua mesa. Subi para cima da minha mesa e aplaudi o gesto desse herói humanitário. A caridade é linda.

 

A pobreza é também um sector decisivo do nosso mercado de emprego. Segundo Isabel Jonet, presidente da Federação Europeia dos Bancos Alimentares, emergiu em Portugal uma nova classe social constituída por “profissionais da pobreza”. Estamos a falar de quadros altamente qualificados formados nas filas da segurança social ou nas cantinas da Cáritas que, através do seu engenho mandrião, acumulam um conjunto de privilégios inacessíveis ao comum dos cidadãos. Por exemplo, um prato de sopa quente ou 90 euros mensais de rendimento social de inserção. Se esta mão-de-obra opulenta fosse contabilizada nas estatísticas laborais, o desemprego em Portugal desceria certamente para mínimos históricos. Portugal não é um país com um desemprego endémico, mas sim uma sociedade muito próxima do pleno emprego. E ainda há quem se atreva a falar mal da austeridade.

 

FPC

 

 

 

 

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