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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

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O cumprimento como problemática

O cumprimento é o preâmbulo da interacção humana. Sem cumprimento não há civilidade nem civilização. Desejamos pressurosos bons dias, saudamos com o ibérico olá ou um oi sambado, perguntamos sem interesse na resposta “tudo bem?”, interrogamos um metafísico “então?”, inquirimos com indolência “como é que é?” Apesar desta diversidade, o cumprimento oral é, em regra, acompanhado por ritualismos físicos, tais como o beijinho, o aperto de mão, o abraço, o dá-cá-mais cinco, o soquinho-entre-brothers-iô, a palmada no ombro, ou o muito cordial chapadão. Por qualquer mistério insondável, precisamos de mexer uns nos outros para depois termos relações sadias. É assim no trabalho, na rua, e no sexo. Não nos bastam preliminares verbais, carecemos também da experiência táctil. É precisamente esta necessidade mexelhona que me interessa questionar neste ensaio filosófico-pedagógico-sociológico-antropológico-jurídico-parvo. Como veremos nas próximas linhas, o cumprimento manual está hoje em dia totalmente desregulado. Gostamos de agasalhar fisicamente o cumprimento, mas não nos preocupamos em definir regras claras e universais que enquadrem esse acto. A crescente insegurança e imprevisibilidade cumprimental é o resultado deste desleixo e não me parece que, enquanto comunidade, possamos continuar a ignorar este problema.  

 

O cumprimento entre mãos masculinas é bastante ilustrativo do caos normativo reinante e nele é possível deslindar alguns dos desafios que se colocam ao código dos cumprimentos. Mas comecemos por descrever a complexidade desta prática para depois identificarmos as lacunas na lei. A principal divisão existente no universo do cumprimento físico masculino é entre o bacalhau e o passou-bem. Aquele é cozinhado pelas calorentas regras da latinidade, este obedece à circunspecção administrativa anglófona. Embora este binarismo introduza por si só confusão no mundo dos cumprimentos, ele é apenas uma nota de uma sinfonia histriónica. Pensemos em exemplos simples destas variações. O passou-bem pode ser realizado com movimento braçal ascendente e descendente, ou então de braço em riste, entesado. Por seu lado, o bacalhau pode servir-se: frontal, espoletado a partir de trás, com a potência de uma bazuca (o chamado “bacalhau louva-a-deus”); lateral, isto é, em basculação da direita para o meio (bacalhau “Luís Freitas Lobo”); ou na diagonal (bacalhau “braço-de-ferro” ou “Stallone”).

 

Aparentemente esta diversidade poderia matizar o convívio, semear um jardim costumário masculino multicolor. Poder podia. O problema é que a harmonia no cumprimento entre dois homens é um indicador de intimidade e cumplicidade. Quando um homem lança um bacalhau louva-a-deus e o outro apõe um bacalhau Luís Freitas Lobo é porque as entranhas da sua amizade estão comprometidas. No caso de dois homens desconhecidos, essa desarmonia indicia que a sua relação não tem futuro. 

 

O cumprimento manual masculino é, de facto, um ritual tortuoso que além de dilemas de estilo coloca vários desafios normativos. Desde logo, que nível de pressão se deve imprimir no gesto? Se for demasiado brando parece que se está a menorizar o interlocutor, se for com muita força pode ser entendido como uma demonstração pueril de virilidade. E quanto tempo deve durar a cerimónia? Se sacarmos a mão apenas um ou dois segundos depois do encaixe dá a ideia de que estamos a despachar a outra parte. No extremo oposto, há quem tenha a lamentável mania de prolongar o cumprimento durante meio minuto ou mais. Não é raro este tipo de cumprimento evoluir para bacalhaus Stallone e daí para pancadaria da grossa. Ou então para beijos eloquentes. Depois há gente que gosta de fortificar o bacalhau que nasce do contacto entre a mão direita de cada parte com uma inesperada mão esquerda. Um bacalhau ao bacalhau. Que fazer nestas situações? Anuir ao repto e colocar também a mão esquerda num cumprimento com quatro patas? Ou deve-se negar ao parceiro o reforço de mão, naquilo que pode ser lido como um indicador de indisposição para se investir sem reservas na relação? E que fazer em contextos de bacalhau pós-mijo? Por quanto tempo as regras da educação masculina vão continuar a obrigar-nos a estender a mão a quem, sem posterior higienização, tenha acabado de pilotar o nabo?

 

Dado o caos normativo que hoje assola o mundo do cumprimento, é normal que as pessoas estejam cada vez mais desorientadas. Aqui ficam duas questões que me ensombram o espírito e às quais ninguém da revista Maria conseguiu responder de forma convincente. Exemplo 1: no meu local de trabalho costumo cumprimentar a colega X (a Xana) com um passou-bem. Encontrei-a recentemente num concerto e tive a iniciativa de lhe dar um beijo na cara. Depois disso já a voltei a encontrar no trabalho, mas quando ia todo lampeiro para lhe dar uma laboriosa beijoca ela estendeu-me sobriamente a mão. Será que quando lhe dei a beijoca no concerto pensou que me estava a atirar a ela e o seu passou-bem foi uma forma de me enjeitar de forma polida? Ou será que ela se orienta pela máxima “no trabalho a mão apertas, lá fora o beijo pespegas” e, sendo assim, ainda tenho hipóteses de a sacar? Exemplo 2: cheguei ao pé de um grupo de três pessoas. O A é meu amigo e com ele estão duas miúdas (a B e a G). Cumprimentei A com um bacalhau e disse apenas “boa tarde” às gajas. Devia ter-lhes dado também um obsequioso cumprimento manual? Teria sido amável e nada abusivo da minha parte ter arriscada uma beijoca nas duas? Alguém me levava a mal se tivesse aplicado uma bela beijoca apenas na mais gira e ficar-me por um aperto de mão à outra? Será que B (de boazona) e G (de gorda) compreenderam a minha decisão ou terão ficado a pensar que eu sou um canalha arrogante? Se alguém me pudesse ajudar ficaria eternamente grato.

 

FPC

Qualificações

Como toda a gente que tira uma licenciatura em sociologia fui para o desemprego no final do curso. O desemprego para um jovem sociólogo é uma espécie de estágio no mundo real que as universidades não precisam de prever nos seus currículos porque a própria sociedade toma esse desígnio em mãos. Este estágio de desemprego é fundamental para o jovem sociólogo. Para poder no futuro analisar os pobres e os oprimidos ele precisa de sentir no osso as privações e agruras do capitalismo selvagem. Foi o que me aconteceu de forma particularmente aguda. Regressado à casa dos meus pais, era acordado todos dias às sete e tal da matina, enquanto eles se despachavam para o trabalho. Despertadores, água a correr, secadores do cabelo, talheres, chaves a tilintar. Um Vietnam diário à porta do quarto. Como se imagina, depois desta agressão matinal era muito raro conseguir dormir até depois das duas da tarde. Mas pior do que os maus tratos que sofria na parte da manhã era a ofensiva moralista constante de que era vítima.

 

- Então não vais procurar trabalho? Eu não alimento malandros!

- 10 euros para ir ao café?! Vai mas é trabalhar!

 

Após meses a experimentar este tipo de abusos e provações senti que o estágio estava terminado. Tinha chegado a hora de ajudar os mais fracos e necessitados, de devolver à sociedade tudo o que ela tinha investido na minha formação. Decidi, portanto, ir trabalhar para a Fnac a arrumar livros nas prateleiras. Não era bem um trabalho directo com populações de bairros da lata, mas permitia-me ajudar pessoas que não conseguiam encontrar o que procuravam. Havia naquela actividade algo de messiânico. Eu não era um vendedor de livros, mas sim um encaminhador de pessoas.

 

- Podes-me dizer em que estante está o Crime e Castigo do Dostoiévski?

- Venha por aqui, eu indico-lhe a localização exacta da obra.

- Por acaso não têm a última edição do Finanças para Totós?

- Siga-me, por favor.

 

Agradava-me a natureza bíblica da minha função. Era uma espécie de pregador bibliográfico. O problema era que por muito que pregasse andava sempre de bolsos vazios, e nunca fui muito dado ao sacrifício carnal e à penitência da alma. Precisava de um plano para subir na vida. Lembrei-me de ir tirar o curso direito, a principal fábrica de desempregados de colarinho branco do país. Perante a vertigem do precipício, lancei-me num salto olímpico. Nota máxima em estupidez. Em conhecimento nem por isso.

 

Como qualquer pessoa insegura, sinto-me atraído por fortalezas nominais de prestígio social. A categoria profissional ou académica é uma delas. O curso de direito foi uma demanda pelo reconhecimento social. A palavra jurista é autoexplicativa. As pessoas podem não ter uma opinião muito favorável dos juristas, mas sabem mais ou menos o que fazem. Sempre existiram juristas no mundo, tal como sempre existiram médicos. A necessidade de tratar as doenças físicas e relacionais são imanentes à história da humanidade. O jurista é o médico que previne e trata as doenças que resultam do relacionamento conspurcante entre as pessoas. Mas nem tudo são rosas. O principal problema de se ser jurista é que as pessoas têm a expectativa que os juristas tenham conhecimentos jurídicos. Um raciocínio linear e despropositado com o qual não contava. Pensava que o canudo me dava um subsídio de prestígio para o resto da vida, mas afinal a coisa não é assim tão simples.

 

Quando me pedem opiniões juridicamente qualificadas invoco, por norma, um lugar-comum qualquer que ouvi na televisão ou digo reflexivamente “essa é uma questão constitucional da maior relevância”. O problema é que nem sempre me safo assim tão facilmente e isso leva-me aos casos em que a minha ignara condição é exposta. Estas situações surgem quando alguém conhecido, família ou amigos, me procura para ouvir um parecer supostamente especializado. A conversa começa sempre com um “ó senhor advogado, preciso da sua ajuda”, tirada cuja cumplicidade que lhe subjaz procura garantir a gratuitidade da informal consulta.  

 

- Tenho ali um terreno em Queijas…

- Recebi uma carta das Finanças…

- No meu contrato de trabalho vem a dizer que…

 

Nestes casos a audiência, que tem dinheiro a ganhar ou a perder, não se contenta com banalidades. As hesitações ou respostas insatisfatórias começam por criar um ambiente de suspeição, depois vem a desilusão e, no final, exposta que está a impostura e o impostor, parte-se para a humilhação. A expectativa frustrada de se poupar uns euros gera uma ânsia de punição face ao consultor imprestável. Verbal na maior parte dos casos, por vezes física também.

 

Devido à multiplicação deste tipo de situações ao longo dos anos e às denúncias de impostura que foram circulando entre a minha rede de conhecimentos, fui perdendo o direito a integrar na minha identidade social o título de jurista. Amigos e família são terra queimada onde as sementes do meu prestígio deixaram de crescer. Nesse terreno sou erva daninha. Cabecinha debaixo de água, menino Frederico, que isto de reclamar um estatuto profissional implica saber mesmo do ofício. Mesmo quando tento angariar prestígio junto de recém-conhecidos, a família, os amigos e a minha desqualificação jurídica acabam sempre por me apunhalar. Sem direito ao prestígio de que gozam os que sabem de direito, abdiquei desse pergaminho. Usei todas as manigâncias para me agarrar aos andares do topo do prestígio social, mas os últimos dedos têm vindo a ceder perante os coices da sociedade. Parece que vou ter de começar a dizer outra vez que sou sociólogo. Ninguém sabe o que é isso, mas ao menos não me chateiam.

 

FPC

 

 

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