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Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

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A culpa é do Anticiclone dos Açores

Quando era miúdo admirava os meteorologistas. Intrigava-me a sua capacidade para prever “o tempo” dos próximos dias e por isso desconfiava que tinham poderes especiais. Sem capas, máscaras ou fatos coloridos, surgiam todas as noites nas televisões heróis e heroínas circunspectamente vestidos que sabiam se no outro dia eu tinha de ir para a escola de galochas ou se podia levar umas sapatilhas mais amigas do pontapé na bola. Ou seja, por volta da hora do jantar a minha vida deixava de ter dilemas. Quando passava o Vitinho, essa invenção tirânica da classe adulta destinada a obrigar a classe fedelha a renunciar ao seu direito fundamental de ver programas como o Norte e Sul, As Crónicas do Crime ou O Tal Canal, a minha alma já estava sossegada.

 

Lembro-me com nostalgia de que nessa altura a Meteorologia era apresentada por meteorologistas profissionais, verdadeiros pedagogos da literacia nacional, que desafiavam o intelecto de uma população portuguesa ainda bastante analfabeta com conceitos insondáveis como “pluviosidade”, “centro de altas pressões” ou “Trás-os-Montes”. Talvez porque muita gente sentia dificuldade para perceber o que ali era dito, os meteorologistas colocavam umas placas magnéticas alusivas aos elementos climatéricos no mapa de Portugal. Mas o ponto alto da Meteorologia era quando os apresentadores passavam da descrição das condições climatéricas para a sua explicação. Nesse momento emergia inexoravelmente a mítica instituição “Anticiclone dos Açores”. A chuva, o sol, o vento, a humidade, as ondas, o frio, o calor, os relâmpagos e tempestades, enfim, tudo era explicado pelo Anticiclone dos Açores.

 

Imaginava que esse Anticiclone era um super-herói líquido, azul, com uma vigorosa forma humana, que trabalhava ali para o lado dos Açores. Se havia sol e calor era porque tinha ganho a batalha aos ciclones que queriam atacar Portugal. Se chovia e fazia frio significava que o herói tinha levado uma coça. Em alternativa a estes dois desenlaces, quando nos informavam que o Anticiclone dos Açores ia para norte ou para sul, conjecturava que provavelmente tinha ido visitar a família ou amigos. Até um Anticiclone precisa de conviver. O Anticiclone dos Açores continua nos dias de hoje a fundamentar toda a heurística da meteorologia portuguesa. Mesmo quando se mete ao barulho um fenómeno tão prestigiado com “as massas de ar frio provenientes do Golfo do México” é o insular anticiclone que, ainda assim, tem a palavra final no destino do clima nacional (e continental!). Para o bem ou para o mal, o Anticiclone dos Açores é sempre chamado à colação.

 

Um dos aspectos mais interessantes do Anticiclone dos Açores é que ele influencia não só a meteorologia nacional mas também o clima intelectual de uma parte da sociedade portuguesa – em particular o actual executivo. Esse ascendente mental desvenda-se numa certa tendência reducionista, parcial, unívoca na explicação da realidade e dos problemas que o país atravessa. A culpa transfere-se do dito Anticiclone para os trabalhadores desqualificados, funcionários públicos e pensionistas, responsáveis pela baixa produtividade e competitividade da economia portuguesa, pelo défice e pela dívida, enfim, pelos ventos e tempestades que assolam o rectângulo. A causa das coisas é só uma, ou melhor, os causadores das coisas más, do mau tempo, são grupos bem delimitados da população.

 

Parece existir cada vez mais gente a interrogar-se acerca do papel que as rendas excessivas, a fraude e a evasão fiscal, a hiperconcentração do rendimento numa elite económica, os equívocos no investimento público e privado, o crime na esfera da alta finança, ou o euro e as políticas europeias tiveram na formação da tempestade social, económica e financeira que fustiga há vários anos o país. O executivo e a matriz ideológica que o enforma enjeitam essas hipóteses de trabalho. Mantêm, mais ou menos secretamente, o credo de que a culpa é de quem quer ter mais do que merece. De quem não sabe trabalhar ou trabalha pouco. Dos que ficam para trás porque não querem correr. A culpa está, sempre esteve, por si bem identificada. A culpa é, obviamente, do Anticiclone dos Açores.  

 

FPC

 

 

 

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