Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

Vou ali já venho

Vou ali já venho é considerado pela crítica como o melhor blogue de sempre. Pelo menos foi o que o seu autor ouviu dizer.

1+1+1= 50 euros

Portugal é um dos países mais ricos do mundo. Pelos menos, aparentemente. Pagamos uma das facturas de electricidade mais elevadas da Europa, hidratamos os veículos onde nos montamos a preços gulosos, e somos taxados sem piedade quando percorremos as autoestradas onde aqueles se desidratam. É verdade que quase ¼ dos trabalhadores portugueses ganham o salário mínimo, inferior a 600 euros, e que uma boa parte dos nossos concidadãos têm rendimentos não muito superiores. Um luxo para um etiope, uma miséria para um alemão. Os portugueses são em muitos casos tratados como ricos quando se lhes pede que desembolsem, mas pobrezinhos na abundância dos bolsos.

 

Perante este desencontro, percebo que certos sacrifícios tenham de ser feitos. Um pobre que não possa aquecer a casa no inverno tem de se aguentar à bronca. Agasalhe-se melhor ou faça uma fogueirinha com os tacos do soalho. Bem mais difícil de aceitar é, do meu ponto de vista, a atomização de canais e serviços a pagar que transmitem os jogos do Benfica. Isso sim parece-me inaceitável e fere valores fundamentais da dignidade da pessoa humana e das regras elementares da vida em sociedade. Uma vergonha, um ultraje, uma bandalheira.

 

O fiel adepto do Glorioso que queira ver no seu aparelho de televisão, no conforto do sofá, os jogos de futebol da equipa principal masculina do clube tem agora de prestar tributo não a um, não a dois, mas a três canais diferentes. Uma equipa, três tenças! Jogos em casa na BTV (não me custam pagar os 10 euros da BTV. São para o Benfica, encaro isso com uma contribuição paralela às quotas de sócio. É uma espécie de imposto quase desejado, um imposto que não é imposto, uma singela contribuição para que o Jonas e os outros heróis fiquem por cá), jogos fora para o campeonato  português na SportTV, e agora os jogos da Liga dos Campeões noutro canal qualquer. Talvez no futuro os direitos de transmissão dos jogos da Taça de Portugal vão para um quarto canal, os da Taça da Liga para um quinto, e os dos jogos amigáveis para um outro.

 

Logo à noite vou ver o Benfica vs Bayern Munique ao Estádio da Luz. O Benfica vai ganhar porque é o melhor clube do mundo, dando assim início ao caminho para a conquista de uma competição que nos foge há 349 anos. Desta vez vou poder adiar a subscrição da nova e odiosa renda. No próximo jogo fora isso já não vai ser possível. E quando essa data chegar a conta será 1+1+1= 50 euros.

 

FPC

 

 

 

 

EMERDAL

O Dinis Machado escreveu que perante uma situação dramática tinha o hábito de procurar o lado cómico da mesma. Dá o exemplo de uma vez que caiu, partiu um dente e, enquanto era observado por transeuntes, sempre inefáveis e pontuais a perscrutar a tragédia alheia, perguntou-se, mais uma vez, “qual é o lado mais cómico disto?” Encontrar graça na desgraça ajuda a amenizá-la, torna-a suportável, humaniza-a. Há muito tempo atrás ia numa ambulância com um amigo que tinha caído de mota. A cara do sinistrado tinha perdido vastas tirinhas de bife para o asfalto. Debaixo do queixo escavou-se uma área que dava para agasalhar confortavelmente um berlinde, talvez mesmo um abafador. Não escasseava sangue na superfície daquele corpo juvenil combalido. Estava este cenário a entrar-me pelos nervos adentro quando o enfermeiro se pronunciou. Da boca daquele profissional de saúde, alto e pançudo, a quem estava entregue a vida do meu amigo, foi-me endereçada a seguinte pergunta talvez um pouco impertinente: “então ali no vosso parque de campismo há gajas boas?” Até o acidentado ressuscitou a rir perante tamanha desfaçatez do senhor enfermeiro.

 

Nem sempre acho piada à tragédia no momento em que a vivencio. Um dia destes os funcionários da EMEL bloquearam-me o carro. O plano para esse dia era sair de Lisboa a seguir ao almoço e ir desfrutar dos prazeres gastronómicos e vinícolas do norte do país. Se tudo corresse de feição, às seis da tarde já estaria na esplanada de um café a trabalhar nos preliminares do jantar. Como nada correu bem, a essa hora estava eu ainda a atafolhar o carro com isto, aquilo e não sei mais o quê. O meu bólide estava estacionado ao pé do prédio onde habito, num lugar proibido, excepto para “tomada e largada de passageiros”. Assumi que o facto de ir “tomar” as minhas duas filhas bebés me qualificava para beneficiar dessa excepção. Desavisadamente confiei na minha rústica hermenêutica. Devia ter pedido um parecer jurídico ao Jorge Miranda.

 

Depois da carga arrumada, fui buscar as crias e a mãe delas. Finalmente ia conseguir fazer-me à estrada. Teria de me contentar em seguir directamente para a mesa do jantar sem passar pela esplanada de partida. Qual não foi o meu espanto quando me deparei com o carro bloqueado, envolvido por uma fita amarela, como se fosse uma prenda. Parabéns! Em menos de cinco minutos algemaram o meu carro e os meus sonhos. Uma velha que patrulha a rua a partir da marquise de um 1º andar de esquina informou-me que não os apanhei “por uma questão de segundos”. Confidenciou-me e a toda a rua que na semana anterior lhe tinham feito uma coisa parecida. Senti-me irmanado com ela e perguntei-lhe se poderia corroborar que eu me tinha ausentado durante quase tempo nenhum. Respondeu-me heroicamente que não tinha nada a ver com isso, fechando de seguida as janelas da sua toca. Desamparado, demolhado pela forte chuvada que entretanto começou a cair, liguei para a EMEL e da EMEL respondeu-me um robô com o qual dialoguei através das teclas do telemóvel. Se estiver ao pé do carro marque 1, se pagar e calar prima 2, se permitir que a empresa encave o seu rabinho escolha o número 3. Tive de esperar 50 minutos para que me devolvessem a liberdade. Quando finalmente dois salgueiros maias desta empresa municipal chegaram, recebi-os cordialmente:

 

- Os prezados funcionários da ditosa Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa, por quem todos os munícipes sentem um carinho e respeito incondicional, têm a gentileza de me explicar os factos objectivos e subjectivos que fundamentaram a vossa ponderada e, sem dúvida alguma, sábia decisão de agrilhoar as rodas do meu carro?

 

Mantendo este tom diplomático, quase reverente, agarrei-me ao braço de um deles a berrar “tenho ali duas filhas bebés no carroooooo!!!!!! Duas!!!!!!!!! Estás a ver!!!!!!!! Isto é uma vergonhaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!”

 

O homem abraçado não se moveu nem articulou uma sílaba. Parecia que tinha ganho raízes nas pedras da calçada. Caso o tivesse conseguido arrastar, quebrando a sua pose rochosa, penso que o tipo me teria dado um tiro. O outro, o homem da EMEL bom, procurou elucidar-me:

 

 - Devia ter deixado os piscas ligados.

- Isso não é obrigatório.

- Pois não.

- Então porque é que me bloquearam o carro?

- Os piscas não são obrigatórios... mas para fazer cargas e descargas é preciso que esteja pelo menos uma pessoa no carro... está na lei e tudo.

- Devia ter dito à minha mulher para vir para o carro e deixar as bebés em casa sozinhas, é isso?

- Oiça, da próxima vez meta os piscas... são 90 euros.

 

É inaceitável que uma empresa pública que comete sistematicamente este tipo de selvajarias tenha um nome fofinho. Se fosse a EPUL e a EPAL, cuja fonética das siglas é condizente com o som de um murro nos dentes e de um tabefe, respectivamente, tudo bem. Mas o que a EMEL faz não é mel, é cocó. Se esta instituição quiser continuar a atormentar a vida das pessoas deveria proceder à alteração do seu nome para EMERDAL: Empresa Municipal Especializada em Rapinar Dinheiro aos Automobilistas de Lisboa. E nesse caso todos nós poderíamos mandar os emerdalistas à merdal.

 

FPC

 

 

Accountability

- Esta empresa tem um grave problema de governance.

- Está desgovernançada.

- O board só se preocupa em encher os bolsos dos sharesholders.

- Ninguém supervisiona o conselho de supervisão do conselho de fiscalização que fiscaliza o conselho de administração que administra.

- Devia haver um conselho de monotorização do conselho de supervisão. 

- E um conselho de regulação do conselho de monotorização.

- E um conselho de constituição do conselho de regulação.

- Quem é que constituía o conselho de constituição?

- O conselho de adminstração, obviamente.

- Genial! Isso seria um benchmark dos modelos de governance.  

- A questão é que não é só a governance que tem de ser alterada. A empresa também sofre de graves liabilities ao nível da compliance.  

- Da compliance e da due-diligence!

- Da compliance, da due-diligence e do assessment!!!

- Ninguém assessa as coisas que é preciso assessar.

- Assessa?

- Quem faz assessments, assessa.

- Assessa ou assesseia?

- Ou assessia?

- Tanto faz. O grande desafio que temos pela frente é ao nível da accountability.

- Concordo.

- Temos de melhorar a nossa accountability!

- Ser accountables!!

- Ser accountables e fornecer accountability!!!

- Uma accountability de vanguarda que accounte accounts accountabilisticamente!!!!

- A empresa devia passar a chamar-se Accountability, SA!!!!!

- Viva a Accountability, SA!!!!!!

- Viva a accounta-BI-LI-TY, em geral!!!!!!!

- A accountability é a coisa mais importante da minha vida!!!!!!!!

- Gosto mais da accountability do que dos meus filhos!!!!!!!!!

- Pela accountability era capaz de me mandar deste prédio!!!!!!!!!!

- Tudo pela accountability. Saltemos!!!!!!!!!!!

- Accounta…

- BI-LI-TYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY.

 

FPC

CEO vs CFO

- Gosto muito do CEO da nossa empresa.

- Não há bons CEO’s sem grandes CFO’s.

- O CEO é que faz o CFO.   

- Quem controla o cash flow é o CFO.

- Pois, mas o business plan, que por sua vez gera o cash flow, é traçado pelo CEO.

- O business plan depende do cash flow. 

- O cash flow é que depende do business plan.

- Num mundo globalizado o fluxo é tudo. O CFO é a lua que guia as marés financeiras da empresa.

- O CFO é uma lua? Então o CEO é um sol alumiador. 

- Quem manda na corp. é o CFO.

- Estás a dizer que o CFO é superior ao CEO?

- Sem dúvida. 

- Então para ti o CFO é, na verdade, CEO?

- O CFO é, indirectamente, CEO.

- Tu não percebes que E está acima de F?

- O CFO assume-se, na prática, como CFEO. Também tem E.

- O CFO responde perante o CEO. O CEO é, por inerência funcional, CEFO.

- CFEO é melhor do que CEFO.

- CEFO arrasa com CFEO.

- E se eu te disser que o nosso CFO vai acumular funções de CWO?

- CWO? O nosso CEO é CWO plus vitalício. Para além de ser CBTSC3PO da empresa para a península ibérica.

- Está visto que não sabes que o CFO foi promovido a CZAZATEMPURI<+<+<+!89FY?!ª^J~~ @~~***BNO da holding.

- O CFO foi promovido a CZAZATEMPURI<+<+<+!89FY?!ª^J~~ @~~***BNO da holding?

- Sim, o CFO.

- Mas isso é uma injustiça para o CEO.

- O CFO tem um MBA.

- E o CEO vê jogos da NBA.

- Mesmo assim acho que o CFO é melhor do que o CEO.

- O CEO é muito melhor do que o CFO.

- O CFO é que é melhor.

- O CEO.

- O CFO.

- O CEO.

- O CFO.

(…)

 

FPC

Catota

- Olha-me só este burrié!

- Burrié?

- Sim, um macaco.

- Não sabia que um burrié é uma catota.

- Uma quê?

- Catota.

- Uma catota é uma cagaita?

- Sim, é uma carranha.

- Carranha?

- Uma catota é uma carranha.

- Carranha é igual a catota?

- Igualzinha.

- Não me parece.

- Porquê?

- A fonética das palavras diz-me que a carranha consiste numa secreção encarquilhada, retesada e enegrecida, alapada há demasiado tempo nas paredes nasais. A catota é uma excrescência catita, gumosa, aveludada, plástica, vestida com joviais tons de verde ainda claro.

- Deixemo-nos de elucubrações.

- Deixa-me elucubrar.

- Não elucubres.

- Elucubrarei se quiser.

- Elucubra então sobre isto: limpa-me essa monca!

- Tenho outra catota?

- Não, tens uma monca.

- Monca?

- Ranho. Langonha. Magma nasal. A catota é uma rino-estalactite.  

- Já viste que certas catotas habitam no interior da ranhola?

- São arrendatárias da monca.

- Passageiras do autocarro mucoso.

-  A catota mais não é do que uma monca fossilizada…

- Estás armado em ranhólogo?

- Com especialização em moncologia.

- Já que sabes muito sobre o tema, diz-me lá como é que se chama aquele fluxo transparente meio aguado que jorra das fossas nasais?

- O termo académico usado para definir essa substância é pinga-pinga.

- Não há um nome mais eloquente?

- Não é muito comum ouvir, mas há quem lhe chame fonfosa. Nunca ouviste dizer “estas alergias deixam-me cheio de fonfosas”?

- Inventaste essa agora, não foi?

- Sim.

- Gosto de fonfosa. E de butureca também.

- Pinga-pinga é uma fonfosa e esta é uma butureca.

- Logo... 

- Butureta significa pinga-pinga. 

  

FPC

Até à próxima

- Desejo-lhe um resto de bom dia.

- Bom dia e bom fim-de-semana.

- Um bom fim-de-semana para si e para a sua família.

- Um óptimo fim-de-semana para si, para a sua família e para os seus amigos.

- Um arrebatador fim-de-semana para si, para a sua família, para os seus amigos e para os seus inimigos.

- Boas entradas na semana que aí vem.

- Boas entradas nessa semana e na que vem a seguir.

- Espero que tenha um ano em pleno.

- Uma vida cheia de alegrias para si.

- Tenha uma morte cheia de vida.

- Viva bem durante a morte e ressuscite ainda melhor.

- Vida eterna para a humanidade.

- Vida eterna para a humanidade e para a bicharada.

- E para os ET’s.

- Não nos esquecendo de deus.

- Dos deuses em geral.

- Sejam eles do sexo masculino ou feminino.

- Ou transsexuais. 

- Ou deussexuais.

- Desejo tudo o que você desejar mais uma coisa qualquer.

- E eu desejo isso e mais um bocadinho.

- E eu mais um bocadinho ainda. Não há ditas.

- Não há ditas sem ser eu desejar sempre um bocadinho mais do que você.

- Você é um bocadinho chato, sabia?

- E você é chato e meio estúpido.

- E você é chato e totalmente estúpido.

- Para além de ser chato e estúpido, você também é parvo.

- Espere lá: qual é a diferença entre um estúpido e um parvo?

- Não sei bem.

- Eu também não.

- Diria que um estúpido faz parvoíces de adulto, enquanto que um parvo faz estupidezes infantis.

- Concordo.  

- Bem, então até à próxima.

- Até à próxima.

 

FPC

 

A recolha

O eufemismo permite perfumar o infecto, maquilhar o ordinário, polir os recantos da indignidade. O mentiroso é apenas “imaginativo”, quem rouba limita-se a “subtrair” ou “desviar”, a senhora que comercializa o seu corpo prazenteiro não é puta, “anda na vida”. A invocação desta figura de estilo pode dever-se a questões menores, como a vaidade estilística do orador ou a mera galhofa, mas também a razões gravosas. Incluem-se nesta gama as situações em que a referência directa a algo ou alguém causa em quem fala e em quem ouve um nível de pudor socialmente insuportável. A linguagem erudita, técnica, ou a própria mímica, nada podem fazer nestes momentos. Como não é possível nomear directamente o inominável, recorre-se à mera alusão, à suavização expressiva, ao travestimento das palavras.

 

Foi com essa candidez criativa que me deparei numa consulta destinada a casais que, estando motivados para a procriação, são infecundos nas suas arremetidas. Depois de a minha parceira ter respondido a algumas questões impúdicas colocadas pela médica (que provocaram em mim pequenos surtos de riso talvez pouco ajustados à situação e à minha idade), fui confrontado com a possibilidade de os inquilinos do meu dependurado T2 serem uns mandriões imprestáveis no que ao labor conceptivo diz respeito. Enjeitei essa hipótese, invocando o facto de me alimentar devidamente, fazer algum desporto, não fumar, e ser sócio do Benfica. Apesar da pertinência destes argumentos, foi-me dito que só havia uma coisa a fazer:

 

- O Frederico vem cá e faz a recolha.

- Qual recolha?

- Vem recolher… percebe?

- O quê?

-O seu esperma.

- Eu é que me recolho a mim próprio?

- Sim, e nós recolhemos a sua recolha.

- Então não posso fazer isso em casa?

- Sim, mas nesse caso tem de trazer a recolha depressa para cá, caso contrário a amostra recolhida pode morrer pelo caminho.

 

O facto de a ordem da missão ter sido enunciada eufemisticamente demonstra bem o nível de desconforto que envolve a sua concretização. Se a médica me tivesse dito “você vem cá, bate uma punhetazinha bem esgalhada para um copo, e depois vai à sua vida”, talvez o opróbrio da situação se desvanecesse. Mas não. Ao optar pela referência ao acto de agasalhar o perneta, mungir o Horácio, embalar o cabeçudo, esmifrar o esquilo, polir a corneta através de um eufemismo técnico, formal, higiénico, sem empatia nem comicidade, a médica aumentou a gravidade daquilo que eu tinha de ir fazer ao hospital. Procurou dar uma roupagem asséptica à porcaria que me sentenciou praticar e, por essa via, fez-me sentir um badalhoco.

 

Como não queria arriscar a vida dos meus meninos, decidi proceder à colheita em solo hospitalar. A defesa da honra do operariado reprodutivo que constantemente aflui às minhas duas fábricas testiculares, mas também a inconfessável dúvida de que esses trabalhadores talvez não estivessem devidamente qualificados para produzir um ser humano, ajudaram-me a enfrentar o embaraço, a vergonha, a humilhação. Aquela a quem eu pretendia polinizar acompanhou-me. Aguardei discretamente na sala de estar, fingindo por vezes esgares de dor para dessa forma confundir as pessoas em relação aos motivos da minha presença naquele serviço hospitalar. Fui chamado e apresentado a uma sala pequena e minimalista na sua decoração, apetrechada com revistas especializadas e uma televisão que se recusava funcionar. Fiquei frustrado por não poder beneficiar dos estimulantes conteúdos oferecidos por este meio, em particular a actualidade informativa ou o programa do Goucha. Apesar deste contratempo, não esmoreci e procurei munir-se de todo o material necessário ao escopo desta visita. Foi então que me deparei com o recipiente onde era suposto acomodar o produto da faina que se avizinhava, o qual me surpreendeu pelo seu volume exagerado. Quem é que aquela gente pensava que eu era? Um cavalo? Nem que ficasse ali dois anos conseguia encher aquele poço. Desculpei tal despropósito e comecei a folhear as páginas da imprensa ali disponível. Acabei por me interessar pelo ar extremamente culto e bondoso de uma senhora com origens indianas. Atento à sabedoria que emanava da entrevista que ela concedeu à publicação, fiz o que tinha a fazer de forma mais mecânica do que orgânica e pus-me a andar daquele compartimento. Cá fora, recurvei a cabeça para o chão, encurtei 2/3 do volume do meu corpo, elevei os pés a cinco centímetros do chão e flutuei de mansinho até à recepção.

 

- Conseguiu?, gritou a muito pouco discreta administrativa.

- Sim, respondi abafadamente.   

- Você não demorou mais de cinco minutos, isso é que foi!, anunciou ela a uma plateia que estava a começar a interessar-se pelo assunto.

- Estou com um bocadinho de pressa, soprei nervosamente, com a cabeça afundada entre os pulmões. 

- Ouvi dizer que este cartão de crédito dá um desconto de 10% em análises ao esperma, afirmou a minha acompanhante, que entretanto se tinha juntado ao festival de achincalhamento público do recolector.

- Tem razão! Sempre é uma ajudinha boa! Deixe-me só então confirmar o número de….

 

E lá estive a ser trespassado durante mais 10 minutos pelos olhares trocistas e brejeiros de uma multidão opressora de seis ou sete pessoas. Grande parte delas certamente à espera da sua vez para ir fazer a respectiva recolha.

 

FPC

 

 

PS: My boys can swim e já ajudaram na produção de uma Mariana. Peço-lhes publicamente desculpa por, também eu, ter desconfiado da sua produtividade.

 

 

Rubrica

A assinatura é a principal protagonista do mundo da identificação. Conhecida pelo seu temperamento burocrático, ela desnuda o nome de cada um perante o olhar inspectivo das repartições, partes interessadas e da lei. Não há contrato ou documento gravoso que dispense a sua tutela. Embora possa actuar sozinha na regulação do comércio das vontades, ela partilha em muitos casos essa tarefa com a sua parceira rubrica. É nesse Robin rabiscado que a assinatura delega a recepção de cartas e outras funções de menor relevância, e é com ele que se faz acompanhar em missões de maior risco, naquelas em que a caneta tem de enfrentar múltiplas páginas e cláusulas contratuais agressivas – fatais para o assinante mais distraído.

 

Nem sempre os assinantes cuidam da legibilidade das suas assinaturas. Algumas são mesmo bastante indolentes, distendidas, arrogantes no seu descuido. Mas, em regra, é possível identificar o nome das pessoas que as apõem. É precisamente aqui que se cava a principal diferença entre a assinatura e a rubrica. Enquanto aquela se conforma com as prescrições estéticas do abecedário, a rubrica liberta-se desse jugo opressor e entende a escrita do nome como um exercício recreativo. Mais do que uma forma de identificação, a rubrica é um devaneio artístico pelo qual o rubricador sente na ponta dos dedos a mesma verve apaixonada com que Pollock atacava as telas, se embrenha nos enigmas simbólicos forjados por Kandinsky, esquadrinha geometrias familiares ao cubismo de Picasso. Diariamente, milhões de canetas BIC e outros pincéis mais refinados vertem nos cantos das folhas o talento de artistas anónimos, unidos na procura de aprofundar os meandros estéticos do abstraccionismo nominal – ou, como é plebeiamente conhecido, do gatafunhismo.

 

Apesar da preponderância da rubrica abstracta, certos quadrantes da sociedade portuguesa têm vindo a alertar para os excessos que resultam desta deriva estilística. Defendem um pacto de regime entre a sobriedade da assinatura e o arrojo da rubrica. O seu livro de estilo admite, por exemplo, a popular linha que liga umbilicalmente o início e o fim do nome. Aceitam, aliás, que os contornos dessa linha possam ser lineares, recurvados ou ziguezagueantes. O adorno estético não é para os moderados um mal em si mesmo. O problema coloca-se quando a pulsão inventiva redunda na ininteligibilidade do nome escrevinhado. Um exemplo clássico deste tipo de garatuja é a rubrica-polígrafo, igual ao tracejar de uma máquina da verdade quando escuta um mentiroso – este estilo é igualmente conhecido como rubrica-Himalaias, pois assemelha-se à orografia de uma cadeia montanhosa. Alvos da crítica desta corrente são também a rubrica-anaconda, desenhada em jeito de espiral, a rubrica-pista-de-fórmula-1 e a rubrica-olha-inventei-uma-letra-nova, a qual, embora se assemelhe aos caracteres chineses, é apenas um rabisco desmazelado.

 

Até aos dias de hoje tenho sido um rubricador que está no limite do aceitável para os moderados e demasiado apegado à ortografia convencional para os radicais. Aponho nos documentos em que me exigem esse certificado nominal a primeira letra do meu nome próprio e dos meus dois apelidos (FPC) e depois agasalho essas três letras no interior de um C com a perna esticada, como aquela sinalização usada pelos professores para indicar a correcção das respostas. Ando, no entanto, tentado a testar o sistema. Desconfio que se desenhasse uma cegonha fumadora, uma bengala com olhos e boca, ou apenas umas linhas embriagadas quando me dizem “faça o favor de rubricar esta página”, ninguém iria reclamar. Vou testar esta hipótese nas próximas semanas e desafio o caro leitor a fazer o mesmo. Caso se confirme que a rubrica é, na verdade, uma prática pueril e obsoleta, talvez fosse boa ideia avançar-se com um abaixo-assinado a exigir o seu fim.

 

&F%P=C:

 

 

 

Grávido

A primeira vez que ouvi um homem dizer que estava “grávido” foi num encontro organizado por associações e partidos de esquerda. Nesse dia já tinha assistido a conferências onde se defendia que os ricos são todos uns grandes malandros, os homens umas bestas intumescidas e as religiões uma fossa normativa entupida por preceitos atávicos e pouco recomendáveis ao olfacto. Bandeiras sensatas, portanto. Embora me sentisse enfartado dessa ementa temática, decidi empanturrar-me ainda mais com um debate acerca dos desafios que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho, das penalizações morais e materiais que sofrem enquanto corpos de gestação da raça humana. Quando entrei na sala, orava um jovem equipado com guedelha, barba e roupas descuidadas, cuidadosamente abrigadas no perímetro da estética acarinhada pelos públicos destes certames. A plateia, feminina por larga maioria, aderia à intervenção. Mais pelo sentido do conteúdo do que pela eloquência da declamação. Limitava-se a afagar o dorso discursivo de um rapaz que estava do lado certo da contenda sexual. Eis que, quando nada o fazia prever, a pauta de uma conversa arrumadinha e progressista o quanto baste emitiu, sem aviso prévio, notas por mim nunca escutadas:

 

- Eu e a minha namorada estamos grávidos...

- Quando fiquei grávido...

- Quando engravidámos...

- A nossa gravidez...

 

Primeiro ouviu-se uma aclamação tonitruante por parte da audiência. Várias mulheres gritaram “é o messias, é o messias!” Depois vieram as vénias. Um bando de andorinhas invadiu a sala e desenhou no ar a forma de um coração. E eu fiquei incrédulo com o enigma que ali tinha sido enunciado. Num primeiro momento ainda tentei deslindar as possibilidades orgânicas de tal fenómeno. Afinal a fronteira entre o masculino e o feminino já não é o que era. Há homens que são mulheres e mulheres que são homens. Se existem transsexuais, por que razão não podem também haver transgrávidos? Censurei a meu raciocínio primitivo, desajustado ao vanguardismo cultural que borbulhava naquele encontro político, e decidi aderir à adoração do grávido. Tentei beijar-lhe os pés, mas ele pontapeou-me o focinho de uma forma muito pouco urbana. Apesar de não ter o hábito de discutir com grávidos, soergui-me para lhe pedir satisfações.

 

- Então venho aqui adorar-te e tu rechaças a minha deferência à patada?

- Não vês que estou ocupado a degustar os morangos que estas duas senhoras me depositam no palato?

- Por acaso és imune à toxoplasmose? Olha que os morangos podem ser perigosos para alguém que se encontra na tua situação.

- A isso sou imune, mas a pessoas que dizem coisas parvas nem por isso.

- Estás de quantos meses? Ainda não se vê a barriga.

- Ouve, a minha gravidez não é física. Disse que estava grávido porque já sabia que as mulheres derretem-se com esta forma romântica de o homem declarar o seu comprometimento com a parentalidade. Sou um tipo carente que precisa de atenção, percebes? Agora raspa-te daqui!

 

A prenhez masculina tinha sido usada ardilosamente por aquele falsário para atrair a simpatia do povo feminino. O grávido orador apresentava-se, devido a essa sua condição figurada, como poeta lírico e servente capacitado para a manutenção do fraldário. Habituadas a serem penalizadas por desigualdades e injustiças, as mulheres compungiram-se com a sensibilidade militante implícita naquela intervenção, acreditaram no projecto identitário e político progressista que emanava daquele discurso mavioso. Um anjo parecia ter descido à terra, mas eu vi o seu rabinho a dar a dar.

 

Homens há (muitos) para quem ser pai implica, de facto, a assunção das mesmíssimas responsabilidades parentais da mãe. Alguns deles falam acerca da sua gravidez sem com isso quererem amealhar reconhecimentos sub-reptícios. Contudo, quando os oiço, não consigo deixar de recuar ao dia em que me confrontei pela primeira vez com o paradoxo gestacional e a impostura que nele germinava. Daqui a uns meses vou ser pai de uma criança que está a estagiar em barricas amnióticas de um corpo feminino bem preparado para o amadurecimento dessa uva. Acompanho a grávida e a gravidez com dedicação canina e entusiasmo transbordante. Mas posso afirmar com bastante certeza que não estou grávido.

 

FPC 

 

Surfista

Depois de uma vida a apanhar ondas prostrado em superfícies esponjosas e inviris que dão pelo nome de bodyboard, decidi que tinha chegado o momento de elevar o tronco e de pé vaguear pelas vagas bombeadas pelo oceano. Por essa altura, o meu corpo suíno e disforme afogava sem misericórdia a flutuabilidade da minha prancha e nem as barbatanas que calçava nos membros inferiores eram capazes de locomover esse bote. Por muito que chapinhasse com as borrachosas patas de pato na água, o meu veículo náutico recusava-se a avançar. Tinha sido concebido para transportar um peso pluma ou, na pior das hipóteses, médio e acabou por ser montado por um hipopótamo humano. Estava a exigir da minha prancha o que ela não me podia dar. Quando lhe comuniquei que a ia trocar por uma de surf, ela prometeu-me que com um pouco mais de esforço seria capaz de deslizar comigo às costas pelas paredes do mar “como os sapatos de salto alto pela calçada portuguesa em dia de chuva”. Apreciei o seu esforço conciliatório, mas o problema não era ela. Era eu.

 

Mal esta relação terminou, envolvi-me com uma prancha de surf. Desde há algum tempo que me andava a sentir atormentado pelo corpo oblongo e vítreo deste tipo de tábuas. A minha nova parceira tinha a altura de uma holandesa, a robustez de uma espanhola e as curvas de uma sueca. Enamorei-me perdidamente por ela. Comprei-lhe um vestido para a proteger das mãos atrevidas das paredes e de outras superfícies impactantes e untei-lhe o corpo com uma cera perfumada. Estes mimos e adornos fizeram-na feliz. Mas tanto ela como eu queríamos mais. Para consumar a relação eu tinha de a conseguir montar. E foi com o peito em chamas e o sexo mirrado (a água em Aljezur é bastante fria) que rebolei vezes sem conta, ofegante e quase afogado, com a minha nova prancha pelos lençóis oceânicos da Costa Vicentina. Sempre que tentava erguer-me em cima daquele corpo flutuante acabava por cair da cama. Quedas, quedas, quedas. Pirolitos e mais pirolitos. Frustração. Impotência. Não havia química entre nós. Insisti várias vezes em domar esse trapézio deslizante sem sucesso e acabei inabilmente por quebrar a sua parte traseira. Senti-me uma espécie de Reinaldo das pranchas de surf, mas não esmoreci.

 

Apesar do início titubeante, tenho feito progressos assinaláveis em áreas fundamentais desta modalidade. Por exemplo, desenvolvi um estilo espectacular de correr pelo areal das praias com a prancha debaixo do braço. Consigo fazê-lo usando o braço direito ou o esquerdo, com a prancha debruçada para a frente ou imbicada para trás, e a avaliar ao mesmo tempo as condições do mar. Este prelúdio é feito com tanto profissionalismo que ninguém na areia desconfia da ineptidão do atleta que troteia em direcção ao mar. Se dentro de água o meu surf é sofrível, em terra firme a minha técnica é inatacável.

 

Mas há mais. Estou neste momento a trabalhar no aprimoramento do eterno olhar-de-falcão-encimado-por-pala-manual. Há muito que os surfistas gostam de atentar no horizonte colocando uma das mãos na testa, como que a fazerem continência aos elementos. Semicerram a vista para conseguirem aumentar a sua resolução, radiografam o horizonte, inquirem-no, têm dúvidas, voltam a perguntar. Para eles fazer surf implica antecipar a onda que aí vem e ultrapassar a concorrência que também a quer navegar. Há apreensão, nervosismo, a vigília é analítica e instrumental. O meu olhar-de-falcão-encimado-por-pala-manual, cuja amplitude é muito penalizada pelos filtros do astigmatismo e da miopia, nega esta filosofia ocular e reconcilia o surf com a sua poesia original. Nesta versão, as precianas dos olhos não se cerram com o objectivo de avistarem mais longe, distendem-se para assim poderem absorver melhor a dança do universo. Em vez de se interrogar a natureza, procura-se vislumbrar a sua alma plácida e movente. Não interessa detectar ondas, mas sim contemplar o orvalho de Neptuno.

Destacaria, por último, a abordagem revolucionária que tenho capitaneado à forma de fazer surf. Se até agora os praticantes desta modalidade entretinham-se a apanhar ondas, eu dedico-me à galharda tarefa de me escapulir delas. Quando a turba identifica a aproximação de uma onda promissora, rema, frenética, na sua direcção, de modo a capturá-la no pico da sua fertilidade, antes do desmoronamento aquífero acontecer e depois de atingido o paroxismo da sua verticalidade. Enquanto os chamados “surfistas” procuram garantir que são alavancados pela lambidela da onda, eu preocupo-me em estar bem longe dessa babugem. Surfar ondas pode ser muito bonito, mas andar aos rebolões debaixo de água e levar com pranchas contumazes na cabeça nem por isso. É, neste sentido, muito mais sensato praticar um surf de evasão. Estou neste momento a trabalhar numa proposta para um campeonato destinado aos garbosos praticantes desta variante. As regras são simples: ganha quem conseguir fazer o maior número de malabarismos com a prancha na areia, apresentar um busto mais meditativo e escapar ileso às varredelas da ondulação. Aí sim, vamos ver quem é que são os verdadeiros surfistas.

 

FPC

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub